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SEGUROS| 07.02.2022

Seguros, uma alavanca para a prosperidade da humanidade desde o início dos tempos

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Babilônia. 2.000 anos antes de Cristo. Centenas de comerciantes atravessam de uma região para outra transportando mercadorias. O risco de perda por emboscadas ou tempestades é óbvio e real. Os comerciantes estão cientes de que várias das caravanas que tentam atravessar o deserto serão perdidas. 

Hoje não é a deles, mas amanhã quem sabe se a carga perdida não será a sua. Eles estão expostos a esses riscos e começam a assumir as perdas juntos. Assim, com este sentimento de solidariedade mútua, todos juntos assumem os danos sofridos por uma caravana ou um navio, e aquele que sofre o ataque não vai à falência. Todos estão protegidos. Eles começam a mutualizar o risco… Mas estamos falando de quase 4.000 anos atrás. Sim, é aí que começa o conceito de seguro baseado na confiança. A confiança entre um comerciante e outro. Um conceito muito incipiente ainda, mas que já era um vislumbre do que mais tarde seria todo um negócio.

Mas o mais importante não é apenas o que mais tarde se tornaria o seguro, com melhorias e avanços muito significativos, mas também que é nesta sociedade que os primeiros documentos que falam desta situação podem ser encontrados. O Código Hamurábi, o documento legal mais antigo da humanidade, inclui entre suas 282 cláusulas conceitos que hoje nos parecem usuais, mas que, no entanto, na época eram uma novidade incrível: associações de ajuda mútua ou acordos para compartilhar riscos e assumir assim as perdas entre todos. Ele até avança até no que seria uma novidade no tráfego marítimo. O “empréstimo a risco marítimo”. Era um empréstimo, mas era muito especial. O comerciante recebia o financiamento para realizar uma viagem marítima. Se o barco naufragava, ele não devia pagar o empréstimo. Se pelo contrário, a travessia era propícia e chegava a bom porto, deveria pagar não apenas o empréstimo recebido, mas também juros. Provavelmente seja uma das referências mais antigas ao seguro.

Muitos anos, ou melhor, séculos se passaram. O ano é 1347. Porto de Gênova. Um navio, o Santa Clara, está prestes a zarpar para o Mediterrâneo com destino à ilha de Maiorca. Centenas de milhas separam ambos os portos e múltiplos são os perigos à espreita nesta travessia. Piratas, tempestades, motins a bordo do navio, a possibilidade de naufrágio… Se este navio chegará ao seu destino é desconhecido.  O fundo dos mares ainda está repleto de muitas embarcações que pereceram há séculos, e com elas a ilusão e a fortuna de muitos comerciantes. A experiência é trágica, mas a determinação por encontrar um mecanismo para lidar com esta realidade é mais forte ainda. Estamos testemunhando o nascimento do seguro como uma indústria. Lá, em Gênova, a primeira apólice de seguro foi assinada em um ato notarial. Foi assim que surgiu esta indústria, em primeiro lugar através de particulares, que eram quase sempre comerciantes e que assumiram o papel de seguradoras ou segurados, dependendo do caso. Então, uma vez profissionalizados, as seguradoras assumiram o controle.

Mas o germe do seguro já estava no lugar. Foi um mecanismo para compensar as perdas de expedições comerciais mal-sucedidas com aquelas que, no entanto, foram bem-sucedidas. Os riscos estavam sendo compartilhados. Esta primeira apólice já incluía alguns conceitos que, embora muitos séculos tenham passado, ainda hoje são válidos: a avaliação do risco para estabelecer um prêmio, o objeto que está sendo segurado ou o tempo que essa garantia durará. Foram logicamente evoluindo e se aperfeiçoando, mas o substrato desta indústria já estava instalado no século XIV e a base era a confiança. Confiança entre segurado e segurador, entre comerciantes ou marinheiros. Isto também não mudou muito. Foi profissionalizada, mas a essência permanece inalterada: a confiança como base do setor de seguros foi, é e continuará sendo a pedra angular deste setor.

Provavelmente a partir de 1347 seriam vários os lugares onde foram assinados contratos de seguro, mesmo que não tivessem estes nomes. Alguns deles foram perdidos, pois temos que esperar quase 40 anos por outro documento semelhante ao de Gênova.  Desta vez em Pisa, em 1384, e poucos anos depois em Florença (1397). Sem dúvida, a Itália foi o berço do seguro marítimo. Esta foi a origem do seguro como indústria, como negócio com fins lucrativos, formalizado, com documentos entre as partes.

 

Um incêndio, um evento chave na história do seguro

No século XVII, um evento fortuito, mas infeliz, marcou um ponto chave na história dos seguros. Um pequeno incêndio em uma padaria em 2 de setembro de 1666, em Londres, mas que cresceu continuamente e destruiu grande parte da cidade. Milhares de edifícios são destruídos e centenas de famílias perdem suas casas e negócios. Um médico, Nicholas Barbon, deixa sua profissão e cria a primeira companhia de seguros contra incêndios, conhecida como Fire Office, a mais antiga companhia de seguros do mundo. Esta foi a origem do que mais tarde se tornariam as famosas placas metálicas nas fachadas de muitos edifícios, com o número de apólice. Para quê? Para que os bombeiros soubessem quais fogos eles deviam apagar. 

SEGURO PALANCA
Imagem cortesia do Museu do Seguro da Fundación MAPFRE

Talvez o nome desta empresa, apesar de ser a mais antiga do mundo, não seja tão conhecido quanto Lloyd’s (que era o nome de um bar, de cujo dono recebe seu sobrenome). Lá, nesse café, homens de negócios e comerciantes começaram a trocar informações, falavam sobre as viagens mais recentes, sobre as cargas que se movimentavam entre portos, sobre aquelas que foram perdidas no mar. Mais uma vez a ideia de compartilhar riscos está de volta à mesa e o que é conhecido como a primeira associação de seguradoras privadas nasce: “Lloyd’s Underwriters”. Eles eram assinantes de riscos, cada um assumindo uma parte (não todos por igual) para escrever e assinar um documento, até que o risco estivesse completo.  Mais rudimentar do que hoje, mas a base é a mesma. Cada assinante era responsável pela porcentagem de risco que ele ou ela havia assumido. Como é o caso de hoje. Compartilhar e confiar. Conceitos-chave então, e que ainda hoje são relevantes.

Curiosamente, Edward Lloyd nunca esteve envolvido neste negócio, mas ele realizou um trabalho muito importante. A publicação do “Lloyd’s News” continua informações fundamentais: tudo relacionado ao tráfego marítimo, navios que se deslocavam de um lugar para outro, cargas, etc. E outra muito importante: possibilitar um lugar para realizar todas essas transações. De fato, após sua morte foi necessário procurar um novo lugar para realizar estes negócios.

O seguro de vida, e também o que poderia ser considerado a primeira pensão, não demoraria muito a aparecer. Desta vez será na França. Dois personagens: O cardeal Mazarino e o banqueiro italiano Lorenzo de Tonti, que criaram um sistema para investir o dinheiro contribuído para várias pessoas. Os investidores recebem dividendos todos os anos… Enquanto vivem, porque quando um dos membros da tontina (como eram chamados) morria, sua contribuição era dividida entre os outros membros… O capital era mantido lá até que apenas uma pessoa esteja viva, quem receberia todo o capital. A máxima é que “quanto mais tempo se vive, mais se tem” e, portanto, era muito comum consultar médicos para procurar famílias longevas entre seus antepassados (assumindo que as gerações atuais também viveriam muito tempo) a fim de incluí-los na tontina. As leis da probabilidade e o princípio da expectativa de vida estão no centro deste negócio. Muito diferente das tabelas de mortalidade utilizadas hoje para estabelecer a anuidade de uma apólice de seguro de vida? Mas é claro que não.

Hoje, o seguro se tornou mais profissional, os riscos evoluíram, outros surgiram e alguns ainda não conseguimos sequer imaginar… Mas uma coisa permanece inalterada. A confiança entre uma parte e outra, a mutualização dos riscos, o seguro como mecanismo para ajudar as sociedades a prosperar, como demonstra a anedota do escritor e jornalista Giovanni Papini, em Nova York, observando a cidade de um dos andares superiores do Empire State Building, então o arranha-céus mais alto do mundo. Alguém que estava ao seu lado acenou para ele. Era Henry Ford.

  • “O que está fazendo aqui sozinho, Sr. Papini?
  • Estava olhando para a cidade”, respondeu ele, “e não posso acreditar que os homens tenham sido capazes de construir tudo isso”.

Henry Ford se aproximou do escritor e disse em um tom confidencial:

  • Você está enganado. Esta cidade não foi feita por homens. Ela foi feita por um seguro.

E para espanto de Papini, H. Ford acrescentou:

– Sem os seguros não teríamos arranha-céus, porque nenhum homem ousaria trabalhar a tais alturas, correndo o risco de se matar e deixar sua família desamparada. Sem seguros, nenhum homem de negócios investiria seus milhões para construir um edifício como este, que uma única faísca pode reduzir a cinzas. Sem seguro, ninguém dirigiria nestas ruas, sabendo que a qualquer momento poderia ter um acidente. E isto não acontece apenas nos Estados Unidos. É o mundo inteiro que descansa sobre a base do seguro. Sem eles, cada homem guardaria seu dinheiro sem investi-lo em qualquer lugar por medo de perdê-lo, e a civilização teria chegado a uma paralisação virtual na barbárie.