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SUSTENTABILIDADE| 17.11.2021

Jeanne Picard (FICVI): “É no volante onde menor consciência do risco temos, até alguma coisa acontecer”

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Por ano, 1,3 milhões de pessoas morrem em acidentes de trânsito, um número inaceitável que a ONU quer reduzir para a metade em uma década com o novo Plano Mundial para o Decênio de Ação para a Segurança Viária. Entrevistamos a presidente da Federação Ibero-Americana de Associações de Vítimas Contra a Violência Viária (FICVI) e cofundadora na Espanha de STOP Accidentes, Jeanne Picard, para fazer um balanço das conquistas e dos desafios na luta contra a violência viária, que se encontra presente especialmente na América Latina e em países em desenvolvimento, e nos grupos mais vulneráveis: pedestres, crianças, ciclistas e motociclistas. A sua entidade, que colabora de maneira ativa com a Fundación MAPFRE no âmbito da segurança viária e na prevenção de sinistros de trânsito, celebra a inclusão nos ODS e reclama maior disposição política para evitar que os carros mais inseguros ou dirigidos com desprezo pela vida continuem sendo “ataúdes com rodas”.

O novo Plano Global das Nações Unidas reclama aos países maior compromisso, mesmo na adesão às convenções internacionais relativas à segurança de veículos. Solicitam aos fabricantes que harmonizem para melhor o equipamento de segurança. Como é a situação nos países mais desfavorecidos e com piores estradas?

Os carros menos seguros são vendidos naqueles países que mais segurança precisam na América Latina. É um escândalo. Na Europa, a cada vez contamos com mais sistemas ADAS (de assistência à condução) e, em geral, com automóveis mais seguros. No entanto, vendemos veículos menos seguros aos países menos desenvolvidos, com menor poder aquisitivo. E por que isso? Porque todas essas medidas de segurança ou complementos de segurança têm um custo. E, então, eles são eliminados para reduzir os preços e vender mais. Além disso, na América Latina e o Caribe há um enorme mercado de automóveis de segunda mão, até mesmo de terceira. Na Guatemala há cemitérios de veículos, muitos deles procedentes dos Estados Unidos, país onde ninguém os quer por serem inseguros, e onde são postos de volta à venda no mercado. A verdade é que a segurança pode ser comprada. Mas deveria ser a mesma segurança para todos: não podemos fabricar automóveis seguros na Europa e vender menor segurança na América Latina. Não importa quão seguro seja o comportamento do motorista, se o carro não for seguro, o acidente terá consequências piores.

Qual é o balanço do I Plano Global e onde a ênfase foi colocada no novo plano para o atual decênio 2021-2030?

O balanço do primeiro plano global, que foi uma grande esperança no momento, é bastante negativo. Infelizmente, os sinistros mortais e mesmo com pessoas com ferimentos graves, continuam em aumento. Contudo, algumas coisas foram alcançadas: por exemplo, Argentina e Colômbia agora contam com agências nacionais de segurança viária, com seus próprios orçamentos, ou o Chile, que está realizando um enorme esforço a nível legislativo. Mas há muitos outros onde existe menos segurança. Tudo depende da disposição política.

Em relação com este novo Plano Mundial para o Decênio de Ação para a Segurança Viária 2021-2030, significa uma nova esperança. Pelo menos, agora a segurança viária e a redução da sinistralidade fazem parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). É preciso reconhecer que os ODS foram muito bem concebidos, são muito ambiciosos e estão muito bem explicados. É um grande trabalho realizado a nível global. Mas não são vinculantes, são objetivos, no final das contas. Então, o compromisso permanece incerto, como estamos observando atualmente, por exemplo, no âmbito da mudança climática. Por mais que assinemos e queiramos, se não cumprirmos… Os ODS incluem educação, justiça e sociedade civil, isto nos oferece uma plataforma para poder agir e isso é muito importante. Tomara que desta vez os países cumpram.

A ONU declarou a segurança viária como um problema de Saúde Pública em 2004. Em 2021, continua exortando os países para a reconhecerem como tal e a mobilidade como um direito humano fundamental e um bem comum social. Que papel deve desempenhar a legislação e as convenções internacionais para alcançar avanços reais?

Certamente, é a base. Se não temos ou não conseguimos uma legislação adequada aos objetivos, não conseguiremos nada. A legislação é fundamental. Por exemplo, agora observamos que o México ainda não possui lei de segurança viária. Em um país enorme, onde 400 pessoas por dia morrem por essa causa! Acredito que estão trabalhando e, felizmente, há muita movimentação da sociedade civil. Foi necessário realizar mudanças na Constituição. Tudo isto é muito lento, mas é real que estão avançando; esperemos que o México tenha uma legislação neste terreno no atual decênio. Quanto antes, melhor. Isto que menciono é só um exemplo de que, sem lei, fica claro que não podemos melhorar.  E depois a lei deve ser aplicada. Há muitos países que a têm, mas não a aplicam. Se não há vigilância da lei, o descumprimento continuará, sem falar do problema da corrupção. Aliás, o novo Plano Global também fala dela…

Reconheço que um esforço está sendo realizado e sempre procuro ser muito positiva: para prevenir, aprendi a ter paciência. Mas quero salientar que modificar leis é importantíssimo: não só de segurança viária, mas de proteção às vítimas. A justiça deve ser preventiva para a sociedade, educadora para o infrator e protetora para as vítimas. Não o chamo consolo, porque não há consolo para quem perdeu um ser querido na estrada. Não queremos que nos paguem pela vida dos nossos seres queridos. Nossos filhos não têm preço, mas o que nos ajuda é a prevenção.

Vocês insistem, entre outras questões, na direção responsável. Como é um motorista responsável e que papel podem desempenhar entidades como a Fundación MAPFRE ou FICVI na promoção da educação viária e na conscientização dos riscos?

As entidades como a Fundación MAPFRE têm um papel indispensável, e com elas colaboramos a partir do momento de nossa constituição em 2010. Em matéria de educação, elas desempenham um enorme papel, não só na hora de informar, mas de formar. Educação, junto com justiça e saúde, são a base da democracia. Mas a educação é muito lenta. Atualmente, estamos trabalhando com uma geração que todos esperamos no futuro será de motoristas responsáveis. Educar pessoas com mais de 40 ou 50 anos, que não receberam essa boa formação, conscientizá-las e mudar atitudes e comportamentos é muito difícil. Os maus hábitos são fáceis de adquirir, mas mudá-los é mais difícil, como acontece em todos os âmbitos da nossa vida. Educação, formação e especialmente informação são necessárias: observamos isto na Espanha, com a introdução da carteira de pontos. Às vezes, a sanção faz parte da educação. Perder pontos convida a refletir. Na América Latina está pendente a formação no nível do motorista, porque muitas carteiras são compradas. Quantas? É a grande pergunta. É mais fácil comprar do que ir a uma escola de condução e aprender de verdade; especialmente, aprender a ter consciência do risco. Acredito que é na mobilidade onde menos ciência existe do risco até que algo acontece conosco. Temos de ser conscientes antes de que o pior aconteça, porque temos uma máquina de matar nas nossas mãos. Ninguém liga seu carro pensando que pode ter um acidente, mas depois não somos cientes dos riscos: velocidade, álcool, distrações, etc.

Riscos enormes, como por exemplo, nos ambientes escolares.

A Fundación MAPFRE leva muito tempo analisando enormemente os ambientes escolares e elaborando estudos. Estamos começando a trabalhar muito com as associações da Federação. Uma delas, no México, quer aprofundar nesse ponto e nós estamos proporcionando tudo o que podemos. Aqui, na Espanha, em A Coruña, também estamos trabalhando. O que aconteceu em Madri, a tremenda comoção pelo acidente na saída de uma escola de Mirasierra, acionou os alarmes, mas nós não paramos de dizer: é a nossa luta diária com os pais. Comportamento, responsabilidade pessoal, mas também, como assinala o Sistema Seguro do Plano Global, é importantíssimo cuidar das infraestruturas e de toda a gestão ou ordenamento do trânsito. Não podemos permitir estacionamentos indevidos diante das escolas. É preciso ir a pé e, se houver a necessidade de ir com o carro, é preciso um estacionamento seguro, onde deixar o veículo e acompanhar a criança até a porta a pé. Não pode existir esse caos que há em muitas escolas, sobretudo existindo o transporte escolar. Ou todas as crianças vão em ônibus ou será preciso procurar soluções ao nível de infraestruturas. É um tema de responsabilidade compartilhada das prefeituras, das escolas, dos pais… As crianças devem estar na escola e sair com segurança, e é preciso dizer “não ao caos”, ainda que os pais tenham pressa. Todas as cidades entenderam que algo deve ser feito. É triste que isto aconteça sempre a posteriori.

Na Ibero-América estamos trabalhando, porque ali há verdadeiros problemas de deslocamento. Às vezes, as crianças caminham à beira da estrada sem segurança, dois ou três quilômetros, até chegarem à escola. Têm ambientes escolares bem pouco seguros e, como consequência, o deslocamento também não é. É um problema grave que é preciso trabalhar. Às vezes, um adulto está sem capacete, com duas ou três crianças na moto… Passos estão sendo dados, mas acontece que é mais barato comprar uma moto que vem da China em uma caixa, desmontada como se fosse um móvel, do que pagar o bilhete mensal do transporte público. O comprador sobe, mas ao mínimo erro, dois dias depois, falham os freios… Algumas são tão baratas que, se os agentes fazem uma multa, é mais fácil comprar uma nova do que pagar a sanção. O mesmo que com os automóveis: motocicletas baratas e total insegurança. Os ciclistas, em menor número nas cidades, são também mais vulneráveis. Temos de proteger estes grupos: pedestres, ciclistas, motociclistas, etc.

Chama a atenção a abordagem integral deste novo plano mundial, não só em relação com o citado vínculo com os ODS, mas na consideração que fazem de sistemas seguros, inclusão de questões de gênero… Quais são os principais desafios sob este novo prisma?  

O desafio é o cumprimento. Há muitos compromissos por cumprir. Eles estão muito bem explicados e o aparecimento do gênero é ótimo porque, de fato, as mulheres são as que melhor dirigem e é um bônus que isto seja reconhecido. Mas há múltiplos desafios, tantos quanto objetivos. Dizem que se trata de reduzir em 50% a mortalidade a nível mundial. Tomara. Entendo isto como difícil, não nos países desenvolvidos, onde talvez seja conseguido, mas, especialmente, naqueles em desenvolvimento: se não ajudarmos a nível econômico e social, isto será impossível. Há alguns anos, a Espanha estava 50 anos atrás dos países nórdicos, quando em 2004 Pere Navarro, em seu primeiro período como Diretor Geral de Trânsito, viu muito claramente: importar os modelos de desempenho dos países que fazem as coisas corretamente. Conseguiu posicionar a Espanha em um bom lugar. O que acontece na América Latina? Eu sempre digo: Copiem à Europa, não continuem fazendo coisas que já sabemos que não funcionam. O capacete salva vidas, o cinto também… Mas a lei ali não ajuda. Porque há países que não têm obrigatoriedade de colocar o cinto, então o fabricante não o inclui. É um desafio enorme que depende, fundamentalmente, da vontade política, de que o governante tome medidas e de que as câmaras de representação, Congresso e Senado, situem como prioridade a segurança viária, que é um problema de saúde pública e econômico enorme. O modelo está bem explicado no Sistema Seguro. Por que não é colocado em prática? Porque falta vontade política. A pressão da sociedade civil e fazer com que a voz das vítimas seja escutada, nosso trabalho, foi um passo à frente. Na Argentina foi conseguido; na Colômbia, no Chile, na Costa Rica… No México está trabalhando uma sociedade civil muito entusiasta, e isso nos leva a seguir. Colocar as vítimas da violência viária dentro da prioridade política é o primeiro degrau para salvar vidas.