MAPFRE
Madrid 2,36 EUR 0 (0,17 %)
Madrid 2,36 EUR 0 (0,17 %)

SAÚDE| 17.03.2023

Como nos afeta a produtividade que triunfa no TikTok?

Thumbnail user

Quantas vezes você ouviu falar do TikTok ultimamente? E não é por acaso, o app já conta com mais de um bilhão de usuários ativos no mundo todo e seus vídeos são vistos mais de um bilhão de vezes por dia.

Além disso, como revelou o próprio Google, já é seu principal concorrente. A plataforma chinesa está ganhando o espaço do buscador mais famoso do mundo. Segundo as estatísticas, quase 40% da Geração Z prefere pesquisar no TikTok e Instagram antes do Google Search e Maps. Como reconheceu o próprio Prabhakar Raghavan, vice-presidente sênior do Google, 4 em cada 10 jovens preferem procurar um restaurante utilizando o TikTok ou Instagram que o Google.

O que é o Tik Tok? Como esta plataforma evoluiu?

Como já mencionamos, é a plataforma estrela entre os mais jovens. Conforme o ranking anual de Apptopia, o aplicativo foi descarregado 672 milhões de vezes em 2022, das quais 99 milhões nos Estados Unidos. Estes números contemplam downloads tanto em IOS quanto em Android, o que o transforma no app mais baixado do mundo pelo segundo ano consecutivo.

Em valores gerais, o número de usuários ativos nas redes sociais a nível mundial é estimado em 4,6 bilhões em 2022, ou seja, cerca de 60% da população mundial, e espera-se que este número aumente para quase 6 bilhões em 2027, segundo as projeções do Statista.

Se falarmos de evolução, como mostra o gráfico, o TikTok se destaca com um ritmo de crescimento impressionante. Depois de ultrapassar um bilhão de usuários durante a pandemia, em 2021 ultrapassou o Instagram em número de usuários e espera-se que esse número alcance dois bilhões em 2024, números que, como vemos, superam em muito as plataformas já muito estabelecidas entre a população como LinkedIn ou Twitter.

INFOGRAFIA TIKTOK

Tendência de “5 a 9” ou como chamar a produtividade excessiva

E embora o TikTok seja popularmente conhecido por suas famosas danças, para muitas pessoas também se tornou o lugar onde obter conselhos sobre como parar de procrastinar e conseguir mais conquistas em um dia. As rotinas mais vistas da rede social criam um modelo de vida no qual a procrastinação ou o tempo para si mesmo não são bem vistos. De fato, somente a hashtag #productivitytips acumulou mais de 112 milhões de visitas.

Acordar às cinco horas da manhã, ir a uma aula de pilates, trabalhar oito horas, preparar a marmita para o escritório, encher a máquina de lavar, correr e deitar-se cedo, esta poderia ser sua rotina ou uma que você viu fazendo swipe up pelo TikTok. Esta é a última tendência de “produtividade” do TikTok: a ‘rotina de 5 a 9’.

Esta tendência é a última moda viral entre os usuários desta rede social, uma forma de aplaudir a produtividade e que aposta em tornar cada minuto um momento útil em nossa jornada, sem espaço para a procrastinação. Seu objetivo é divulgar ao resto dos tiktokers tudo o que fazem em um dia, demonstrando que são uma espécie de super-heróis capazes de chegar a tudo e lutando contra a temida sensação que vivemos muitos de que “faltam horas no meu dia”.

Analisamos os prós e contras que têm estas rotinas e seu impacto em nossa saúde.

Como essas tendências de hiperprodutividade nos afetam?

Ver um vídeo deste tipo divide os tiktokers da plataforma em dois grupos. Por um lado, há quem seja a favor deste tipo de rotinas e as entende como uma maneira de motivar-se e conseguir chegar a tudo. Mas, por outro lado, há quem critique esta produtividade excessiva e a associe ao esgotamento físico e mental, e que acaba se associando ao descanso como um sinônimo de “jogar a toalha”. Paradoxalmente, essas tendências de produtividade surgem paralelamente a todas aquelas que incentivam dedicar tempo a si mesmo e que focam na nossa saúde mental.

Apesar de estes vídeos do TikTok terem muito sucesso e contarem com milhões de visualizações, é preciso ter mais em mente as consequências que podem ter em nós mesmos. Para falar sobre isso contamos com a Ana Isabel Estévez Gutiérrez, professora titular da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Deusto e que em 2022 desenvolveu junto com a Fundación MAPFRE o estudoImpacto psicológico dos comentários negativos nas redes sociais“.

Segundo Ana, vários estudos mostraram que nosso cérebro não tolera a inatividade. Por exemplo, vinte minutos sem fazer nada representam um nível de fadiga mental maior que o que representam vinte minutos realizando uma tarefa complexa, como somar com três dígitos. A maioria das pessoas prefere dedicar-se à primeira tarefa que lhe for proposta antes de se cansar.

A visualização de vídeos do TikTok permite “entreter” e “estimular’ nosso cérebro, assevera Ana Estévez.

A especialista também indica que o conceito de hiperprodutividade é em si mesmo um conceito complexo. Representa a capacidade de poder produzir mais e de aproveitar ao máximo também o tempo todo. No entanto, salienta, enquanto nossa atenção está no TikTok, a mente não se concentra nem em nós mesmos, nem em como nos sentimos ou o que precisamos. Também não se dirige ao que está fora da tela. O conceito de que é preciso obter algum tipo de resultado em todo momento é contrário à nossa necessidade obrigatória de descansar, de parar para poder pensar e tomar perspectiva. É claro que também é possível fazer coisas alternativas às telas.

Como o TikTok afeta a nossa saúde mental

Como explica a professora Estévez, existem muitas evidências sobre o impacto em nossa saúde tanto física como mental. Algumas delas seriam, por exemplo, a evidência científica que mostra que as telas podem produzir um efeito muito negativo na duração e na qualidade do sono. Os problemas de sono podem afetar a capacidade de memorizar e aprender. De maneira mais indireta, por exemplo, o sono poderia alterar o sistema imunológico, enfraquecendo-o, o que poderia aumentar a possibilidade de adoecer. Outros efeitos do sono que poderiam afetar a médio ou longo prazo estariam relacionados com a possível alteração da amadurecimento do cérebro e a obesidade, entre muitas outras.

Os estudos também mostraram que os estudantes, quanto mais tempo dedicam aos videogames, quanto mais utilizam o smartphone e mais ativos são nas redes sociais, piores notas obtêm. Neste sentido, a psicóloga também aponta que, também não se deve esquecer de que quanto mais o menor passar com seu smartphone, sua TV, seu computador, seu tablet ou videogame, mais as relações familiares serão alteradas. Se os pais e mães estão conectados a meios digitais, menos estarão na relação com os meninos e as meninas, algo fundamental em seu desenvolvimento.

No entanto, na área da saúde mental, alguns dos aspectos que mais se destacam são, sem dúvida, os transtornos de comportamento alimentar que aumentaram de maneira alarmante durante os últimos anos, especialmente durante o confinamento.

Ana Estévez nos compartilha um artigo[1] que publicou recentemente no qual mencionava que, em 2017, a Royal Society for Public Health do Reino Unido publicou um relatório cujo título era #StatusOfMind que enfatizava que a rede social que teve maior impacto negativo na saúde mental dos jovens era o Instagram. Além disso, em 2019 o mesmo órgão ressaltou em seu relatório #NewFilters a marca negativa do uso de filtros no Instagram. Especialmente, na imagem corporal e, portanto, na ansiedade e depressão geradas por padrões inatingíveis de beleza. Estes relatórios e diferentes sentenças fizeram com que o Reino Unido proibisse aos influencers o uso de filtros nas fotos ou vídeos para fins publicitários (se estes forem enganosos) relacionados com produtos cosméticos.

 

[1] López-Montón, M. e Estévez, A. (2022). O Instagram incorpora uma ferramenta para tratar a ansiedade e a depressão: serve para alguma coisa? The Conversation. ISSN 2201-5639

 

Diferenças nestes efeitos entre diferentes gerações

Na adolescência, por exemplo, afirma Ana, dos 13 aos 18 anos, o tempo dedicado às telas devido aos smartphones atinge em alguns casos 6 horas e quarenta minutos diários. Isto poderia ser equivalente a uma quarta parte do dia e a 40% do tempo médio de vigília.

É também importante ressaltar que a adolescência é o período vital no qual os hábitos são formados e, também, a infância é o período crucial no desenvolvimento de uma pessoa. Os comportamentos nesses primeiros anos poderiam ser a base ou carência de muitas das circunstâncias que acontecem posteriormente. A infância é para toda a vida[1], Ana afirma.

 

[1] Estévez, A. (2013). A infância é para toda a vida. Em Martínez-Pampliega, A. e Iriarte, L. (editoras). Avanços em terapia de Casal e Família em contexto clínico e comunitário. Madri: Editora CCS.

 

Mas a grande pergunta é, podemos fazer alguma coisa para que nos afete menos?

Esta é uma grande pergunta e a que muitos estarão fazendo agora mesmo. A doutora em psicologia nos explica que, sem dúvida, podemos fazer algo para mudar este padrão, por exemplo, o limitar seu uso é de uma das medidas mais eficazes para que nos afete menos.

Como mencionou anteriormente, o consumo excessivo de telas poderia ter um impacto negativo. Não se deve esquecer de que se expõe desde muito cedo a conteúdos inadequados para meninos e meninas, por exemplo, à violência, algo que pode ter um impacto muito negativo e que é preciso tentar evitar.

 

ARTIGOS RELACIONADOS: