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INOVAÇÃO| 21.04.2021

NFT, o metaverso e o que esperar desta tecnologia

Marta Villalba

Esteban Viso

Uma das siglas mais em voga nas últimas semanas é, sem dúvida, o NFT. Os Non Fungible Tokens são a mais recente revolução em aplicações da tecnologia blockchain. E não chegam sem polêmicas. Há quem veja nisso uma armadilha. Há quem veja uma oportunidade. E qual é a verdade? É difícil dizer, mas podemos começar esclarecendo o que é exatamente um NFT.

Começando pelo início: o que é um token. É um elemento de dados não sensível (ou seja, sem valor de exploração) que contém uma referência ao conteúdo sensível e que é acessível somente por meio do processo de tokenização original.

Resumindo: um token é o equivalente a um “voucher”, usado para dar algo a alguém, e esta pessoa poderá utilizar ou acessar quando quiser. Assim, se tivermos um token equivalente a uma torradeira, poderemos trocá-lo quando quisermos pela torradeira física. Se o token for igual a 0,001 bitcoin, seu detentor poderá trocá-lo quando quiser, e receberá o valor equivalente à cotação em euros ou em dólares daquele momento.

No exemplo que acabamos de ver, o token é fungível porque pode ser trocado por dinheiro real e, portanto, pode ser gasto. Entretanto, isso não acontece com os NFTs, que nunca perdem seu valor porque representam ou são equivalentes a um intangível.

 

Então, o que é um NFT?

Qualquer coisa que criamos e que publicamos na internet é um intangível que pode ser associado a um NFT, a um token imutável que funciona como um certificado de autenticidade. Ou seja, podemos associar uma imagem de pixelart, uma animação digital, um monólogo, uma criação literária, uma transmissão ao vivo, enfim, qualquer coisa.

Esse “ativo” (explicaremos agora o porquê das aspas) será associado a uma transação em uma cadeia de blocos (blockchain), normalmente o Ethereum, mas que começa a estar presente também em outras cadeias conhecidas.

Ao associar o ativo à cadeia de blocos, ele ficará necessariamente vinculado a esse bloco, assim, obtém-se um NFT. E pode ter um valor incalculável ou um valor nulo. Tudo dependerá de uma coisa que os humanos praticam há centenas de anos: o colecionismo.

Seth Godin propõe uma definição muito precisa:

o que é um NFT? É um token digital, da mesma forma que um Bitcoin, mas que é um só e é único, como um Honus Wagner (jogador de beisebol): só existe um. Um destes tokens pode estar ligado a outra coisa (por exemplo, um vídeo de um lance de basquetebol, uma pintura a óleo, ou este texto) mas não é essa coisa. É somente uma ficha autorizada pela própria pessoa que a criou para que seja a única.

Para compreender o NFT, precisamos compreender o colecionismo

É preciso entender o que está por trás desse impulso que leva algumas pessoas a quererem tanto uma coisa que, pra consegui-lo, desembolsam milhares (ou até milhões) de euros. Não é fácil entender se não sentimos esse impulso, por isso explicar o NFT é tão complicado.

O exemplo mais universal de colecionismo é o álbum de figurinhas. As crianças sabem que completar a coleção é difícil, porque algumas figurinhas não saem com tanta frequência como outras. Para dar um exemplo de álbum de futebol, um jogador de primeira divisão de um grande time sairá com menos frequência do que um reserva de um time pequeno.

Essa escassez faz o valor dessas figurinhas aumentar progressivamente. O valor de cada figurinha será maior quanto menos figurinhas “repetidas” existirem. As crianças começarão a oferecer cada vez mais figurinhas de menor valor na troca para poderem “adquirir” aquela que falta para completar a coleção. Uma quantidade absurda de figurinhas pode ser oferecida somente para completar o álbum. Qual o sentido disso? A sensação de completude, de possuir algo raro (ou único, no caso mais extremo).

Por isso mesmo, o primeiro tweet da história foi comprado por quase três milhões de dólares. Por quê? Para ser a única pessoa do mundo que o possui. E, a partir dessa lógica, podemos pensar em outros exemplos como este. Ou, para citar Enrique Dans:

Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, há anos se propôs a criar uma imagem por dia, todos os dias. Agora ele juntou todas as imagens, ancoradas no Ethereum, e vendeu essa obra digital na Christie’s em um leilão que ultrapassou os 69 milhões de euros.

Assim, entende-se que o valor do NFT está em certificá-lo como “coisa única” da criação digital associada. E essa criação digital pode ser qualquer coisa.

Agora está explicado porque colocamos “ativo” entre aspas anteriormente: o objeto associado ao NFT pode ser transformado em algo desejável pela comunidade de colecionadores (de arte ou de qualquer coisa) e, com isso, ocorre uma espiral especulativa que faz com que o NFT alcance valores estratosféricos nas condições ideais.

O metaverso e o NFT

Vamos fundo na questão para tentar explicar a relação entre o NFT e o metaverso. Para começar, um metaverso é um ambiente em que os humanos interagem (social e economicamente) utilizando seus avatares. Ou seja, um mundo virtual (lembram-se do Second Life?) ao qual os usuários se conectam, no qual uma série de regras de participação é estabelecida e cria-se uma espécie de metáfora do mundo real.

E sim, sem as limitações do nosso mundo. O romance “Ready Player One” propõe um metaverso em que a população mundial vive uma fantasia distópica e passa grande parte da existência em uma rede de realidade virtual onde têm emprego, lazer e tudo o que é necessário para se desenvolver.

Quando falamos sobre o NFT e o metaverso, damos um passo além. É algo que pode chocar qualquer pessoa alheia a esse mundo, mas esta newsletter tem a chave para entender o que está começando a acontecer (ou o potencial da combinação do metaverso com NFT):

um participante pode passear por um shopping center virtual e comprar uma fantasia digital do Mickey Mouse na loja da Disney para seu avatar. Depois, pode ir à praça de alimentação pedir algo para ser entregue em sua casa física pelo Uber Eats. Em seguida, pode ir a um show dos Beatles ao vivo no Centro de Artes Cênicas do Spotify. Pode ouvir o show em seus AirPods pelo Spotify quando quiser fazer uma corrida no mundo físico, competindo com seus amigos […] É tudo perfeito: seus dados e compras são transferidos entre os mundos físico e digital.

Aqui consideramos a transferência efetiva de recursos (dados, compras) entre dois universos, o real e o virtual. É aí que entra em cena a Web3, ou a internet descentralizada: a chave que pode unir o NFT com o metaverso e que (segundo afirmam alguns especialistas) pode nos permitir entrar nesse novo mundo, uma espécie de cópia do mundo representada no Ready Player One, se quisermos fantasiar.