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SAÚDE| 29.03.2023

O impacto social e econômico da saúde mental

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Um bilhão de pessoas no mundo, uma em cada oito, vive com um problema de saúde mental, segundo a Organização Mundial da Saúde. O assunto não é novo, mas a situação atípica que geraram a covid e os confinamentos disparou os casos e contribuiu para trazer à tona um assunto sobre o qual não era frequente falar em público. Longe de ser uma questão individual, a saúde mental é um dos grandes desafios sanitários atuais, que tem profundas consequências socioeconômicas e obriga a repensar o modo como seu tratamento está sendo enfrentado.

Não é a mesma saúde mental que a aparição ou não de transtornos mentais. A diferença pode ser vista no filme “Uma mente maravilhosa”, no qual Rusell Crowe interpreta John Nash, um gênio da matemática e prêmio Nobel de Economia que sofria esquizofrenia paranóica. Apesar do seu diagnóstico, Nash progrediu em sua vida profissional e pessoal, um exemplo de doença mental que, com ajuda, consegue manter uma boa saúde mental. Portanto, podemos entender a saúde mental como um estado de bem-estar dinâmico, que pode mudar com o tempo em resposta a muitos fatores.

Assim se explicou o conceito e a importância de aprender a conviver com as desordens mentais, na apresentação do último relatório da Associação de Genebra (GA), o agrupamento global do setor segurador. O estudo, chamado. Promovendo a paz mental: saúde mental e seguros. e no qual a MAPFRE participou, permite apreciar a dimensão do problema e oferece algumas ideias para encontrar soluções em um terreno tão complexo.

Mulheres e jovens, os mais afetados

Em primeiro lugar, há uma clara tendência crescente das condições de origem mental. Dentro desta escalada, a pandemia foi um ponto de inflexão, com um aumento repentino de sua incidência. A covid gerou, em menos de um ano e meio, 53 milhões de novos casos de depressão e 76 milhões de ansiedade no mundo, de acordo com o Institute for Health Metrics and Evaluation. Embora tradicionalmente a imagem das doenças mentais seja mais associada à esquizofrenia, transtorno bipolar ou similares, as mais difundidas, e as que mostram um aumento mais preocupante, são precisamente a ansiedade e a depressão.

Mulheres e jovens foram os grupos populacionais mais afetados. Baseado no gênero, dois terços dos novos casos afetaram mulheres. E baseado em idade, chama a atenção a incidência entre os mais jovens, com o maior aumento entre os menores de 25 anos. Os níveis de incidência de novos casos pela pandemia permanecem elevados até os 50 anos, quando baixam progressivamente à medida que aumenta a idade. As desordens mentais se tornaram um dos maiores problemas sanitários para jovens e adultos em idade de trabalho: entre 10 e 24 anos, as autolesões e a depressão são a terceira e a quarta causa mais comuns de doença, enquanto entre 24 e 49, a depressão é a sexta com maior prevalência.

O custo da saúde mental

Esses números falam por si sós do drama social e humano. Mas tem mais: estima-se que seu custo a nível global chegará a 6 trilhões de dólares em 2030, um volume maior que o PIB da grande maioria dos países do globo. Em 2010 esse número era de menos da metade, 2,5 bilhões; uma evolução que aponta que o impacto econômico pode continuar aumentando de maneira exponencial.

O custo da má saúde mental vai muito além do gasto sanitário. Por exemplo, para a União Europeia este custo representou 4,1% do seu PIB, segundo a OCDE.  Desse montante, o custo direto sanitário foi de 1,3%, enquanto o indireto subiu para 2,8%, entre prestações da previdência social (1,2%) e produtividade perdida e desemprego (1,6%). O estudo foi realizado com base nos dados de 2015, portanto, as proporções seriam maiores atualmente.

O setor segurador está diretamente envolvido através dos serviços de saúde e seguros de vida (de deficiência, de proteção de renda…). Os problemas mentais já são a causa mais frequente de incapacidade no trabalho, e a cada ano as seguradoras pagam 15 bilhões de dólares apenas em indenizações deste tipo. Outros estudos do setor apontam que, entre os usuários dos serviços sanitários, a proporção daqueles que comparecem a eles é cada vez maior devido a problemas mentais.

Para onde deve ir o tratamento da saúde mental?

Diante desta realidade, seria mais simples pensar que, uma vez superada a pandemia, também melhorará a saúde mental global. Mas nada indica que será assim. “Se não o abordarmos, o problema só piorará no futuro. A covid deixou um legado muito difícil, nas relações sociais e nos comportamentos, de ansiedade social especialmente entre os jovens… E as circunstâncias sociais não estão melhorando, com uma guerra em andamento, incerteza econômica ou a mudança climática”, afirma Adrita Bhattacharya-Craven, a principal autora do relatório.

Bhattacharya-Craven, diretora de Saúde e Envelhecimento da Associação de Genebra, destaca três pontos nos quais avançar em uma boa direção. O primeiro é a enorme relação entre saúde mental e saúde física, que age em um duplo sentido: aqueles que sofrem de doenças crônicas mostram níveis de incidência de desordens mentais notadamente maiores. E as pessoas com doenças mentais veem sua saúde física piorada.

Neste sentido, Alma Fernández, diretora médica da Savia, a plataforma de saúde digital da MAPFRE, conta que na Espanha cerca de um terço dos pacientes com hipertensão, diabetes ou câncer têm depressão e mais de 20% dos que sofrem de câncer.  Além disso, os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não contagiosas (dieta inadequada, vida sedentária e consumo de tabaco ou álcool) são agravados se o indivíduo sofrer um transtorno mental. “Podemos considerar que os transtornos mentais são, por si sós, um fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas”, afirma a especialista.

Esta visão é a que levou a programas pioneiros como o implementado pela divisão de saúde da MAPFRE na República Dominicana, MAPFRE Salud ARS, que inclui a saúde mental nas estratégias de abordagem de doenças crônicas como hipertensão ou diabetes, de qualquer tipo de câncer, de pessoas com duas ou mais doenças graves ou em paliativos. Estes pacientes, mais vulneráveis, recebem um atendimento preventivo que os ajuda a melhorar sua autoestima e a compreensão de como sua doença pode afetar suas relações sociais e familiares, mitigando assim o impacto mental de suas patologias.

Outra questão a ser levada em consideração, segundo Adrita Bhattacharya-Craven, é onde reside a maior parte do problema: “a grande maioria dos problemas de saúde mental são casos de ansiedade ou depressão”, lembra. E estes transtornos requerem um tratamento próprio. “Há uma tendência a supermedicar estes problemas e a pensar no tratamento psiquiátrico e hospitalar do problema. Precisamos ampliar os serviços com os quais o enfrentamos e focar em estratégias específicas nestas áreas”, opina.

Em um plano mais geral, boa parte da solução passa por acabar com o estigma. Não é uma tarefa do setor sanitário, mas de múltiplos atores e da sociedade em seu conjunto, embora a diretora de Saúde da GA defenda que as empresas podem ter um papel muito destacado. O local de trabalho, junto com a situação financeira, é uma das principais fontes de problemas de saúde mental. “As empresas já realizam campanhas de vacinação, para levar uma vida mais saudável ou para uma melhor alimentação. Por que não fazer algo a respeito da saúde mental?”, pergunta Bhattarchaya-Craven. A proatividade na abordagem dos problemas mentais é positiva, inclusive do ponto de vista econômico, porque permite localizar o problema antes de se tornar muito grande, como seria uma licença profissional de vários anos.

 

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