Nos últimos 50 anos, quatro em cada dez pessoas foram afetadas por tempestades tropicais, furacões, enchentes, secas, ondas de calor ou incêndios florestais, uma média de um desastre natural por semana, registrando cerca de 100.000 vítimas fatais e prejuízos econômicos que ultrapassam US$ 360.000 milhões. Esses são alguns dados do relatório Para uma Estratégia Ibero-Americana de Resposta a Desastres de Origem Natural: Resiliência, Seguro e Parcerias Público-Privadas, elaborado pela Fundación Iberoamericana Empresarial (FIE), em colaboração com a Mapfre e o CAF-banco de desenvolvimento da América Latina e do Caribe.

Atualmente, os sistemas de prevenção, alerta precoce e resposta a emergências ajudam a salvar mais vidas e mitigar danos. A região avançou de forma expressiva na prevenção, proteção civil e sistemas de alerta precoce, existindo cada vez mais consciência sobre a necessidade de se antecipar a esses riscos. É o que avalia Manuel Balmaseda, economista, analista financeiro e um dos autores do relatório, que ressalta, no entanto, que os reflexos de uma catástrofe não terminam quando a emergência ocorre. Suas sequelas podem se estender por anos, prejudicando famílias, desacelerando a atividade econômica e atrasando o desenvolvimento dos países. 

“A conta deste tipo de catástrofes recai diretamente sobre os lares, as empresas e, em última análise, sobre toda a sociedade. Os lares perdem patrimônio e renda, as empresas sofrem estragos e paralisações nas atividades e os governos precisam mobilizar recursos extraordinários. Os cidadãos também arcam com as despesas públicas por meio de impostos, maior endividamento ou renúncia a outros serviços e investimentos. O desafio é completar esses avanços, integrando sistematicamente o risco de desastres no planejamento fiscal, territorial e financeiro. Se as catástrofes são recorrentes, os mecanismos para enfrentá-las também devem ser”, aponta.

Fundos de contingência, seguros e parcerias

Os especialistas concordam que um dos grandes desafios da região é consolidar sua resiliência financeira. Contar com mecanismos previamente estruturados permite possuir recursos imediatos quando ocorre uma catástrofe e agiliza a recuperação. Entre as ferramentas mais eficientes destacam-se os fundos de contingência, os títulos de catástrofe, as linhas de financiamento emergencial, os seguros e as parcerias público-privadas. Neste cenário, o seguro desempenha um papel essencial. Ele não apenas auxilia no conserto de lares ou na recuperação de negócios, mas também garante estabilidade financeira a famílias, empresas e administrações públicas no momento em que mais precisam. Sem estes mecanismos, boa parte dos custos da recuperação recai diretamente sobre os afetados e sobre os cofres públicos.

10 medidas fundamentais

A Estratégia Ibero-Americana de Resposta a Desastres de Origem Natural apresenta um guia com medidas para reduzir a lacuna de proteção (81% na região), incentivar parcerias público-privadas, ampliar o acesso ao seguro e aprimorar os mecanismos de financiamento diante de catástrofes.

A Fundación Iberoamericana Empresarial (FIE) apresentou à Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB) o relatório para sua avaliação na XXX Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, que ocorrerá em Madri nos dias 4 e 5 de novembro de 2026. Se a cúpula adotar suas propostas, como saberemos daqui a cinco anos se a iniciativa foi bem-sucedida?

“Um primeiro passo pode ser a criação da Rede Ibero-Americana de Redução do Risco de Desastres, mas o indicador principal deveria ser uma queda contínua da lacuna de proteção, acompanhada de maior cobertura para lares, empresas e infraestruturas cruciais, pagamentos mais ágeis e menor pressão sobre as contas públicas. O objetivo central é que lares e empresas retomem suas atividades quanto antes e que uma catástrofe não se transforme em uma crise econômica e social prolongada”, destaca Manuel Balmaseda, ao reafirmar que a resiliência financeira deixou de ser uma opção e se tornou uma condição indispensável para o desenvolvimento sustentável da Ibero-América.