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SAÚDE | 28.04.2020

Entrevista com Javier González, engenheiro de materiais e fundador da The Open Ventilator

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“Nosso objetivo é que nenhuma pessoa, em qualquer lugar do mundo, morra por não ter um respirador”

Com a #COVID-19, a comunidade científica alerta que estamos diante de uma doença que, quando chega a estágios avançados, pode atacar praticamente qualquer parte do corpo, mas, na grande maioria dos casos, os pulmões são a área mais afetada. Por esse motivo, pacientes com maior grau de infecção geralmente precisam de assistência mecânica para respirar. Em um contexto sem precedentes de demanda mundial por equipamentos médicos, esses dispositivos, utilizados há muito tempo, tornaram-se um bem precioso e escasso. Conversamos com Javier González, engenheiro de materiais e fundador da The Open Ventilator, um projeto em parceria com a Fundación MAPFRE que colabora no financiamento da produção de um modelo de dispositivo equivalente aos respiradores comerciais já homologados. O objetivo é tornar esse recurso disponível para todos.

Quais especialistas de diferentes áreas estão envolvidos no design desse ventilador? 

A The Open Ventilator nasceu da preocupação com um grave problema de escassez de respiradores na Espanha. Por isso, um primeiro conceito foi desenvolvido para verificar a possibilidade de criar um respirador que ajudasse a salvar vidas. Javier Asensio, médico do Hospital 12 de Octubre em Madri, na Espanha, se juntou imediatamente a este projeto. Para o desenvolvimento, entramos em contato com a Celera, uma rede de jovens talentos, e com a Universidade Rey Juan Carlos, que decidiram apoiar a iniciativa. A partir daí, diferentes pessoas de diversas áreas especializadas resolveram participar, como engenheiros eletrônicos, cientistas da computação, designers gráficos e especialistas em questões jurídicas, entre outras, todas essenciais para contribuir neste grande projeto. 

Como o respirador funciona? 

Basicamente, ele é um dispositivo que gera um fluxo de ar controlado com pressão positiva para inflar os pulmões, semelhante à maneira de se encher um balão. Quando gerado em um paciente, é necessário controlar o fluxo e avaliar duas variáveis. Por um lado, a velocidade e o volume do fluxo e, pelo outro, a pressão utilizada. Para o médico, a medição de ambas as variáveis é essencial, porque cada uma fornece informações diferentes. Como resultado, temos vários tipos de ventilação que podem ser divididos em dois grupos: controle de volume e controle de pressão. Ao controlar o volume, o objetivo é garantir um volume mínimo, ou seja, que uma quantidade mínima de ar chegue aos pulmões para garantir sua ventilação adequada. No entanto, há outras situações em que é mais interessante controlar a pressão exercida. Essa é uma ferramenta amplamente utilizada em pacientes que sofrem de COVID-19, uma vez que a doença gera grande estresse respiratório, tornando o pulmão rígido e frágil. Isso requer a aplicação de uma pressão mínima muito alta e uma pressão máxima muito baixa para manter o pulmão distendido e obter a ventilação correta, evitando, assim, uma pressão excessiva que pode danificar ainda mais o pulmão. É aí que está a importância de ventilar controlando não somente o volume, mas também a pressão.

E o que diferencia esse modelo de outros que já estão no mercado? 

Nosso interesse não é nos comparar a outros projetos, já que toda ajuda é apreciada na luta contra a pandemia. Dito isso, a principal característica do dispositivo da The Open Ventilator é que ele atende às especificações de saúde para garantir a segurança da intubação e consegue ajustar todos os tipos de parâmetros e necessidades do paciente, como frequência respiratória, volume ou umidade do ar. Para isso, ele tem diversos sensores e componentes, como medidores de velocidade, controle de pressão, filtros, umidificadores, mecanismos de controle e sistemas de alarme com sistemas de segurança redundantes, para atender aos critérios de segurança e eficácia exigidos pela legislação vigente. É composto também por um sensor de machine learning: ele aprende e se ajusta às necessidades médicas em tempo real. Graças a tudo isso, ele superou os exaustivos testes de fadiga, eletromagnetismo e ensaio in vivo e, agora, esperamos que ele finalmente seja aprovado no teste clínico em pacientes. Dessa forma, nosso objetivo é que, uma vez superada a pandemia, ele seja homologado com a marca CE, seguindo o procedimento estabelecido e cumprindo todas as normas médicas. 

Mas ele já obteve a primeira homologação, certo? Quais serão os próximos passos? 

O respirador da The Open Ventilator foi o primeiro dos projetos lançados na Espanha a receber aprovação para combater o coronavírus com urgência, mas não foi o único. Nosso próximo passo é obter a validação de hospitais. O respirador foi aprovado nos testes realizados no ambiente de simulação para fazer pequenos ajustes de otimização. Com isso, as equipes de pesquisa conseguem avaliar a inclusão de pacientes no estudo clínico com base nas condições logísticas de cada centro de saúde, de acordo com os rigorosos requisitos exigidos pela Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS). O teste também será ampliado a outros hospitais na América Latina. Enquanto isso, a produção em escala já começou com o objetivo de fabricar as primeiras 250 unidades nas próximas semanas, destinadas principalmente à América Latina.

Qual foi a reação da comunidade médica ao seu trabalho? 

Com um protótipo avançado de um respirador mais robusto e funcional, várias organizações hospitalares mostraram-se dispostas a apoiar o projeto por causa da saturação de leitos nas UTIs por pacientes em estado grave. Como mencionei anteriormente, agora, o foco mudou para os países da América Latina, onde a situação da COVID-19 está mais alarmante. 

Qual é a importância do envolvimento de empresas privadas na pesquisa? Como a participação da Fundación MAPFRE ajudou? 

Sem as primeiras contribuições financeiras privadas dos membros da Celera e, acima de tudo, sem o apoio incondicional da Fundación MAPFRE, seria impossível prosseguir com esse espetacular projeto espanhol de P&D. Embora toda a equipe trabalhe sem o objetivo de gerar lucro, a verdade é que os componentes necessários não são apenas caros, mas também difíceis de obter. Portanto, sem as contribuições de milhares de pessoas e sem o apoio da Fundación MAPFRE, da Comunidade de Madrid e do setor industrial de empresas, esse projeto jamais teria sido levado adiante. 

Qual é a capacidade de produção esperada? Quantos pacientes que precisam de um respirador será possível ajudar? 

Agora, o objetivo principal é ter os 50 primeiros respiradores o mais rápido possível, graças aos materiais. Os primeiros serão distribuídos na Espanha para a realização dos testes finais em humanos, e outros 40 serão entregues à Fundación MAPFRE para doação a diferentes hospitais. A partir daí, a produção será expandida para 25 por semana, com capacidade de aumento para 25 por dia, se necessário. O objetivo é que nenhuma pessoa, seja na Espanha, na América Latina ou em qualquer lugar do mundo, morra por não ter um respirador. 

A solidariedade move esse projeto desde o primeiro momento, e isso também traz dificuldades.

Toda a equipe da The Open Ventilator está trabalhando sem fins lucrativos: são cerca de 70 pessoas em todo o mundo que querem ajudar os serviços de saúde a salvar vidas para que nenhuma pessoa, na medida do possível, se sinta negligenciada por não ter um respirador. Isso exige um enorme esforço de coordenação, de tomada de decisão e de comunicação interna. É um trabalho vorás que, às vezes, nos faz esquecer de sermos gratos o suficiente pelo imenso esforço de cada membro da equipe. Estamos nos alimentando mal e com muitas noites de insônia.

Obrigado pelo trabalho que vocês estão fazendo para toda a sociedade!