Não é uma notícia que chame especialmente a atenção, porque cada vez é mais frequente. Uma nova fraude bancária utiliza o WhatsApp para enganar os usuários por meio de chamadas de vídeo. Nelas, os criminosos fingem ser o banco e solicitam senhas e códigos de verificação que depois utilizarão para tirar dinheiro das contas. É uma estratégia muito simples que faz das pessoas idosas suas vítimas mais frequentes.
Atualmente, a população mundial está envelhecendo mais rapidamente do que em décadas passadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 2015 e 2050, a proporção de pessoas com mais de 60 anos quase dobrará, saltando de 12,1% para 22%. Essa mudança demográfica vai muito além do dado estatístico, pois tem um profundo impacto em nossa relação com a tecnologia. Já não são apenas os jovens ou os trabalhadores ativos que a utilizam, para se tornar uma ferramenta essencial na comunicação dos idosos, na pesquisa de informações, na realização de gestões ou até mesmo no cuidado da saúde no lar.
É verdade que eles estão cada vez mais integrados na vida digital, mas esta mesma porta abriu um espaço para o risco, pois os idosos se tornaram um dos alvos prediletos dos golpistas online, que se aproveitam de sua vulnerabilidade. Como usuários iniciantes, por não serem nativos digitais, os idosos tendem a acreditar nas mensagens, ligações ou e-mails de desconhecidos, simplesmente porque eles parecem educados ou convincentes. Também experimentam maior dificuldade para se movimentar livremente nos ambientes digitais e nem sempre possuem alguém por perto para ajudá-los a verificar se algo é real ou se é apenas uma armadilha. Além disso, seus dispositivos nem sempre estão atualizados ou possuem as proteções adequadas.
De acordo com um estudo da Kaspersky sobre hábitos digitais dos idosos, 44% dos espanhóis com mais de 65 anos não possui nenhuma solução de cibersegurança instalada em seus dispositivos; 32% aceita termos e condições sem ler ao baixar aplicativos; 30% repete senhas e 29% mantém ativada a geolocalização de forma permanente. Esses comportamentos, que parecem inofensivos, são portas abertas para os criminosos digitais. O mesmo estudo aponta que, embora 82% das pessoas com mais de 65 anos não tenham sofrido qualquer tipo de ciberataque, 11% reconhecem ter baixado um vírus acidentalmente e 7% admitem ter recebido uma mensagem solicitando clicar em um link falso e no qual informaram seus dados pessoais.
Por outro lado, os cibercriminosos são cada vez mais ágeis e estão mais bem organizados, como demonstra a velocidade com que continuamente surgem novos tipos de crimes virtuais.
No ano de 2023, por exemplo, ocorreram mais de 286 milhões de tentativas de fraude via SMS e WhatsApp na América Latina, o que coloca a região na liderança deste tipo de cibercrime. Aproximadamente 39% dos cidadãos latino-americanos já foi vítima de fraude digital, com um aumento de 45% em 2023 quando comparado ao fechamento do primeiro semestre. Nos Estados Unidos, o impacto dos cibercrimes alcançou patamares sem precedentes. Apenas em 2024, os prejuízos informados ultrapassaram 16 bilhões de dólares, um crescimento de 33% em relação ao ano anterior, conforme dados do FBI. O número de denúncias também foi expressivo, com cerca de 860.000 casos registrados, embora as autoridades alertem que os números reais podem ser muito maiores devido ao fato de que, em muitos casos, os crimes não são denunciados. As pessoas idosas foram especialmente prejudicadas, com mais de 147.000 denúncias e perdas estimadas em 4,8 bilhões de dólares.

Na Europa, o cibercrime também tem se consolidado como uma ameaça crescente e onerosa para a economia e a segurança institucional. A Eurojust relatou que, em 2024, o número de casos de cibercriminalidade aumentou consideravelmente, e a agência ampliou em 50% o suporte a equipes conjuntas (JIT) e a coordenação entre estados membros para desestruturar redes de ransomware, malware ou golpes por investimento.
As modalidades de golpe não variam significativamente entre os países, mas sua escala e complexidade reforçam a dimensão global do problema: a suplantação de identidade (solicitação urgente de dinheiro por parte de amigos ou familiares após a invasão do perfil), o phishing com links maliciosos para descarregar malwares como Flubot ou trojans bancários, avisos falsos de entregas que solicitam pagamentos para a liberação dos envios, ofertas de emprego falsas que solicitam dados bancários ou pagamentos administrativos, fraudes financeiras que simulam a identidade de bancos ou assessores para esvaziar contas, investimentos fraudulentos que prometem criptomoedas ou ouro para atrair vítimas para esquemas de pirâmide, e até mesmo engenharia social para obter o controle de contas de WhatsApp, quando os criminosos fingem fornecer suporte técnico ou de empresa de telefonia visando enganar os usuários com o envio de códigos de verificação.
Como você pode se proteger? A resposta reside na prevenção e no conhecimento. Não basta que as pessoas idosas utilizem cada vez mais os dispositivos eletrônicos: elas precisam entender os perigos a que estão expostas e proteger suas informações pessoais. Elas devem aprender a identificar situações suspeitas e a reagir apropriadamente.
A educação deve ser personalizada para esses usuários. Evitando os tecnicismos incompreensíveis, é preciso tomar exemplos concretos: ensinar que o banco nunca solicitará senhas pelo WhatsApp, que chamadas de vídeo de desconhecidos são sempre suspeitas, ou que criar uma senha robusta pode ser tão simples quanto combinar palavras familiares com números. Se mesmo com todas as precauções elas ainda forem vítimas de uma fraude, é necessário que saibam exatamente os passos a seguir e quem devem procurar por ajuda.
Nesse cenário, já existem iniciativas que provam que a lacuna digital pode ser reduzida com as metodologias adequadas. Um exemplo é o programa Ciberseniors da Fundação Cibervoluntários, focado na capacitação de pessoas acima de 55 anos, especialmente aquelas que moram em áreas rurais, para que aprendam a usar os aplicativos móveis no dia a dia. O objetivo vai além de ensinar a usar um telefone celular ou um computador, envolve um treinamento prático para navegar com precaução, proteger senhas, reconhecer links suspeitos e identificar tentativas de fraude.
Outro exemplo é o projeto PIDA (Pontos de Inclusão Digital), promovido pela AlfabeTICs60. Seu objetivo é aproximar a tecnologia da terceira idade por meio de uma rede de pontos de atendimento permanente em bairros e municípios. Nesses locais, os idosos encontram formação, assessoria personalizada, acesso a dispositivos e espaços de socialização. Também é incentivada a mentoria entre pares e a colaboração com associações, centros públicos e voluntários, garantindo que cada participante se sinta acompanhado.
Na MAPFRE, acreditamos que a cibersegurança deve fazer parte dos hábitos diários com a mesma naturalidade com que cuidamos de nossa saúde ou de nossa segurança física. Esta convicção nasce de um princípio fundamental: a proteção das pessoas idosas no mundo digital não é tarefa apenas dos especialistas, mas exige um compromisso coletivo. Por esse motivo, incentivamos programas de capacitação internos como The Firewall Mindset que, como mencionado no nosso Relatório de Governança Corporativa 2024, que treinou mais de 21.000 funcionários mundialmente em boas práticas digitais e cultura de segurança.
Como uma seguradora global, nossa abordagem é baseada em três pilares: prevenção, assistência e confiança. Acompanhamos nossos clientes na adoção de medidas de prevenção simples, oferecemos suporte técnico em caso de imprevistos e mantemos um diálogo claro com eles, para que entendam como se proteger. A digitalização evolui rapidamente e a nossa prioridade é que ninguém fique para trás.
Para diminuir o risco de cair nessas fraudes, os especialistas reforçam uma série de medidas básicas, porém fundamentais. A primeira é nunca compartilhar códigos de verificação, sejam recebidos via SMS ou WhatsApp, pois nem bancos nem operadores solicitam esses dados. Também é essencial ativar a verificação em duas etapas, porque é uma barreira adicional que dificulta o sequestro da conta. Além disso, é conveniente desconfiar de qualquer mensagem urgente ou inesperada, sempre confirmando por outro meio, como uma ligação ou mensagem independente, a identidade de quem supostamente escreve. Por fim, você nunca deve clicar em links suspeitos nem baixar arquivos cuja procedência não esteja verificada.
O objetivo não é transformar os idosos em especialistas em tecnologia, mas devolver a eles a confiança que os golpistas tentam tirar, e que o mundo digital cumpra sua promessa: conectar, nunca excluir.