ZoomTalentoImprensa

5
continentes

 

34.000
colaboradores

Investimos por princípios, convencemos pela lucratividade

Assumimos a parte que nos interessa no desenvolvimento sustentável

Trabalhamos com conhecimento e reflexão para criar debate público

M

ECONOMIA | 17.03.2020

Análise do Serviço de Estudos da MAPFRE sobre a resposta dos bancos centrais à crise

Gonzalo de Cadenas Santiago

Diretor de análise macroeconômica e financeira do Serviço de Estudos da MAPFRE

O Federal Reserve dos Estados Unidos voltou a reagir com uma intervenção de emergência, anterior à abertura dos mercados, e precedida de novas tensões de liquidez que foram aumentando ao longo da semana à medida que se revelava a potencial gravidade da crise do COVID-19 na União Europeia.

Os efeitos no mercado não demoraram a aparecer: nova queda no Brent; nas bolsas europeias (IBEX, EuroStoxx e Dax), inclusive maior que as asiáticas; e a valorização do euro com a possibilidade de chegar aos 1,15 dólares esta semana. Por sua vez, o índice que mede a aversão ao risco, o VIX, encontra-se em níveis superiores à quebra da Lehman, enquanto as diferenças de Investment grade e seus CDS dispararam. Por último, os prêmios de risco da periferia da Europa também começaram a aumentar.

  • O Fed anunciou um novo corte de 100 pontos de base em sua taxa de política monetária, o que, unido à redução de alguns dias anteriores, encontra-se agora na faixa dos 0/0,25%, nível em que se encontrava antes da normalização da política monetária ao final de 2015.

Em nossa opinião, isso tudo é muito bem-vindo, mas pouco eficaz na situação atual.

  • Ademais, em relação à gestão de expectativas, o Fed assinalou um forward guidance benevolente in extremis, assegurando que não tem intenção de alterar esse modo de emergência até que a situação se estabilize e que os empregos e os preços estejam em uma situação sustentável.

Com isso descarta-se qualquer alteração da política atual, ao menos até o final de 2021.

  • Por outro lado, a instituição reativou seu programa de compra de ativos por um montante de, no mínimo, 700 bilhões de dólares, cedendo ao QE4:
    • Ao menos 500 bilhões de dólares serão utilizados para compras de Treasuries norte-americanos.
    • Pelo menos 200 bilhões de dólares serão utilizados na compra de títulos com garantia hipotecária (Mortgage Backed Securities, MBS).
    • Espera-se que a proporção na composição atual do balanço do Fed não seja alterada.
    • As compras serão iniciadas imediatamente, as primeiras quantidades de UST (títulos do tesouro) e ABS são conhecidas, embora ainda não se saibam quais são o montante mensal total das compras nem sua duração. O limite mínimo de compras (de pelo menos 700 bilhões de dólares) indica que essas aquisições pressupõem um mínimo de 85 bilhões ao mês.

A renovação de um programa de compras ambicioso é bem recebido pelo mercado, embora ainda existam dúvidas quanto ao efeito das compras dos QE1_2_3. por vários motivos: a situação dos balanços domésticos das famílias não é um problema (como era anteriormente), mas sim a dos balanços corporativos. Observam-se tensões crescentes no funding (financiamento) das médias empresas e no tecido das PMEs (BBBs, HYield etc.). Faz-se menção especial ao setor de utilities e energia, pois encontra-se em uma situação especial dada a queda abrupta do preço do petróleo. As medidas de compra se devem (no melhor das hipóteses, se ampliam) às compras de dívida corporativa. Isso é especialmente importante para evitar downgrades (reduções de rating) de ativos corporativos no passivo de entidades financeiras, como é o caso do setor de seguros.

  • Implementação de medidas de liquidez de uma ação coordenada com outros bancos centrais (BoC, BoE, BoJ, BCE e SNB)
    • Corte de 50 pbs (pontos de base) em 25 pbs no OIS dos swaps em dólares
    • Coordenação com outros bancos centrais para que todos incluam as operações em 84 dias sobre as recompras para uma semana, e assim oferecer liquidez de modo continuado
    • Corte da taxa de descontos na venda de liquidez em 50 pbs

As medidas de liquidez efetuadas de maneira coordenada são fundamentais. Elas se juntam às já realizadas de maneira unilateral pelos demais bancos centrais e evitam a arbitragem internacional de liquidez em dólares, o que maximiza seu efeito. Trata-se precisamente da medida que nós e os analistas em consenso reivindicamos como fundamental.

Apela-se ao bancos que empreguem sua reserva de capital e liquidez, se necessário (não serão penalizados), e que sejam eliminadas as exigências de reservas.

Esta medida tem o efeito de uma mensagem de “o que é necessário fazer agora”. Está alinhada com a sugestão de Lagarde, feita há uma semana, sobre a possibilidade de revisar temporariamente os requisitos de capital do sistema financeiro para que as instituições utilizem suas reservas de capital e liquidez.

Por outro lado, é conveniente salientar que a administração norte-americana estabeleceu programas de PPP entre o setor público e privado, a fim de aumentar a capacidade de testes para a COVID-19. Os EUA dispõem, no momento, de uma capacidade de testes de <60 p/milhão em comparação com os >350 p/milhão da Europa. Foram precisamente a ausência de informações sobre a situação real da sociedade e o potencial disruptivo que motivaram as medidas in extremis. Trata-se claramente de um problema de seleção adversa que está ocorrendo tardiamente, contudo, com a intensidade necessária.

Demais medidas realizadas até o momento pelas diferentes instituições de política monetária:

Fed

03/03/2020 – O Federal Reserve surpreendeu com o corte de 50 pbs nas taxas de juros entre as reuniões de 3 de março. O presidente do Fed, Jerome Powell, deixou claro que o Comitê Monetário e Financeiro, não acreditava que a política monetária fosse a solução para resolver os desafios econômicos que a COVID-19 trouxe. Powell explicou que o objetivo da medida era ajudar a evitar um enrijecimento das condições financeiras que, de outra forma, poderia pesar sobre a atividade econômica.

16/03/2020 – O Fed corta 100 pbs, novamente fora da reunião que estava prevista para os dias 17 e 18 de março. Para aliviar as tensões nos mercados.

Compras de ativos: o FOMC anunciou que compraria pelo menos 500 bilhões de dólares em valores do Tesouro e 200 bilhões de dólares em valores respaldados por hipotecas de agências nos próximos meses. Powell afirmou que o objetivo dessas compras era assegurar o funcionamento desses mercados, e que o Fed não desejava se limitar a um calendário futuro ao realizar essas compras. Em torno de 37 bilhões de dólares em títulos do Tesouro foram comprados em 13 de março e aproximadamente 40 bilhões de dólares de títulos do Tesouro estão programados para 16 de março.

Medidas de liquidez: o objetivo principal do Federal Reserve é apoiar a liquidez em todos os mercados financeiros e de financiamento mundiais, para que os bancos norte-americanos possam continuar concedendo empréstimos aos domicílios e às empresas porventura afetados pela COVID-19. Nesse sentido, o Federal Reserve: rebaixou o tipo de desconto em 150 pontos de base, em 0,25%, anunciou um acordo com os bancos centrais estrangeiros para ampliar a provisão de liquidez em dólares norte-americanos no exterior e eliminou os requisitos de reserva para os bancos nacionais.

BCE

Reunião de 12 de março

O BCE não fez alterações na taxa de depósito sem câmbios em março, estando em -0,5%, por conta das expectativas do mercado de um corte na taxa de, ao menos 10 bps. Todas as demais taxas também se mantiveram sem alterações.

As diretrizes para o futuro se mantiveram sem alterações e continuam afirmando que as taxas “serão mantidas em seus níveis atuais ou em níveis inferiores até que se perceba uma convergência firme das perspectivas de inflação” com o objetivo da inflação do BCE, e “que essa convergência se reflita sistematicamente na dinâmica da inflação subjacente”.

O programa de ajuste quantitativo foi intensificado, com 120 bilhões de euros adicionais nas compras de ativos líquidos até o final do ano (além das compras mensais de 20 bilhões de euros). Essa medida deverá elevar as compras mensais de ativos em 32 a 33 bilhões de euros por mês até o fim do ano. O QE permanece aberto. A declaração também menciona uma “forte contribuição dos programas de compra do setor privado”.

O BCE também anunciou algumas mudanças temporárias (de junho de 2020 a junho de 2021) no programa de Operações de Refinanciamento no Longo Prazo (TLTRO III) com o objetivo de ser mais generoso. A taxa aplicada aos empréstimos será 25 vezes inferior à taxa de refinanciamento principal, e 25 vezes inferior à taxa de depósitos (anteriormente igual à taxa de depósitos) se os bancos cumprirem com seu ponto de referência para os empréstimos. Também se ampliou a quantidade máxima de empréstimo pelos bancos, de 30% dos empréstimos qualificados (em termos gerais, todos os empréstimos, excluídas as hipotecas) para 50%. O BCE também poderia investigar a possível flexibilização dos requisitos de garantia de modo a garantir que os bancos façam “uso completo” do apoio.

Ação coordenada em 15/03/2020

  • O BCE e outros grandes bancos centrais oferecerão operações semanais em dólares norte-americanos com um vencimento de 84 dias, além das operações existentes em uma semana.
  • O preço de todas as operações em dólares dos Estados Unidos será reduzido à taxa de câmbio do OIS mais 25 pontos de base.
  • Os novos preços e operações adicionais serão efetivas a partir da semana de 16 de março, e serão mantidos durante o tempo que for necessário para apoiar o funcionamento adequado dos mercados de financiamento em dólares nos Estados Unidos.
  • O Banco do Canadá, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão, o Banco Central Europeu, o Federal Reserve e o Banco Nacional da Suíça anunciaram hoje uma ação coordenada para melhorar a provisão de liquidez, mediante os acordos de linha de intercâmbio de liquidez em dólares dos Estados Unidos.

Esses bancos centrais concordaram em reduzir o preço dos acordos de permuta de liquidez em dólares dos Estados Unidos em 25 pontos de base, de modo que a nova taxa de câmbio será a taxa de câmbio do índice de um dia do dólar dos Estados Unidos (OIS) mais 25 pontos de base. Para aumentar a eficácia das linhas de swaps na provisão de liquidez a prazo, os bancos centrais estrangeiros, com operações regulares de liquidez em dólares norte-americanos, também concordaram em começar a oferecer semanalmente dólares dos Estados Unidos em cada jurisdição com um vencimento de 84 dias, além das operações com vencimento de uma semana oferecidas atualmente. Essas mudanças entrarão em vigor com as próximas operações programadas para a semana de 16 de março. As novas ofertas de preços e vencimentos serão mantidas enquanto for necessário, de modo a apoiar o funcionamento adequado dos mercados de financiamento em dólares dos Estados Unidos.

Brasil

No Brasil, nós e todos os demais esperamos que o BCB reduza a taxa SELIC em 25 pbs, em 4,00%, levando em conta o comunicado emitido pelo banco em 3 de março, quando afirmou que o “impacto econômico da desaceleração mundial na economia brasileira tende a dominar uma eventual redução ao valor recuperável dos preços dos ativos financeiros”.

O Banco Central do Brasil (BCB) reduziu a taxa SELIC em 225 pbs desde julho de 2019 para 4,25% em fevereiro.

México

O Banxico provavelmente cortará sua taxa de referência em pelo menos 50 pbs em sua próxima reunião em 26 de março, em 6,50%, depois de o Federal Reserve ter reduzido a taxa de fundos em 100 pbs, em 15 de março, levando-a a seu limite zero.

Japão

Em 16 de março, o Banco do Japão adiantou sua Reunião de Política Monetária (MPM) originalmente programada para os dias 18 e 19 de março. As principais decisões políticas são as seguintes: 1) O Banco do Japão manteve suas taxas políticas em curto e longo prazos, bem como a orientação para o futuro; 2) Indicou uma postura de compra mais ativa em relação aos fundos cotados na bolsa e os fundos de investimentos imobiliários, deixando as diretrizes de compras anuais sem alterações para ambos; 3) Aumentou temporariamente o limite superior para as compras anuais de papel comercial e títulos de empresas; 4) Introduziu operações especiais de provisão de fundos para facilitar o financiamento das empresas em resposta ao novo coronavírus (COVID-19).

O BOJ estabeleceu um limite superior para o ritmo de compra anual de ETFs de 12 trilhões de ienes para o momento. Entretanto, como também declarou que sua diretriz de compra anual de ETFs se manterá em 6 trilhões de ienes ao ano, observamos isso como uma mera indicação de uma disposição para aumentar ativamente as compras conforme necessário, não que fosse comprar ETFs a um ritmo anual de 12 trilhões de ienes ou mais. De modo semelhante, com os REITs, o BOJ fixou um limite máximo anual de 180 bilhões de ienes, enquanto manteve sua diretriz de compra anual de 90 bilhões de ienes.

O Banco do Japão também decidiu aumentar o limite superior de compras anuais de papel comercial e títulos corporativos no total de 2 trilhões de ienes, limitando as quantidades em circulação de 3,2 trilhões para os primeiros e 4,2 trilhões de ienes para os segundos. As compras adicionais serão uma medida por tempo limitado, até aproximadamente o final de setembro de 2020.

As novas operações especiais de abastecimento de fundos para facilitar o financiamento das empresas devido à COVID-19 proporcionará às empresas o acesso aos empréstimos a uma taxa de juros de 0%, com o prazo de vencimento de até um ano.