Os jovens continuam querendo voltar às cidades do interior?
Acredito que o modo como os jovens veem o meio rural está mudando. Há 20 anos, os jovens que ficaram vivendo no interior talvez fossem considerados pessoas que falharam na vida. Agora isso já não é mais visto dessa maneira. Os jovens, principalmente, não pensam assim. A era digital e os novos modelos de vida saudável estão rompendo com estereótipos e colocam o meio rural como um espaço privilegiado para viver. Hoje em dia, ser do interior é muito bom, porque temos oportunidades de trabalho, graças às tecnologias, temos a oportunidade de viver de forma “slow”, usufruindo do ambiente natural. Além disso, podemos ir para a cidade sempre que precisarmos, uma vez que as comunicações (em sua maioria) também melhoraram.
Quais as necessidades que consegue identificar nos jovens que decidem ir para a cidade?
Normalmente, a mudança ocorre aos 18 anos, quando começam os estudos superiores, embora também a falta de oportunidades de trabalho em alguns setores seja motivo de migrações, além da necessidade de “ver mundo”. Mas, fundamentalmente, são: estudos e trabalho.
Com a pandemia, estamos voltando ao interior?
Creio que, neste momento, no interior temos mais facilidades. Temos mais espaço, há menos pessoas vivendo lá, e isso favorece a barreira contra o vírus. Vimos também que, graças ao trabalho remoto, muitas pessoas que tinham vínculos no interior decidiram deixar a cidade e trabalhar em suas casas interioranas. Estão também crescendo os espaços de coworking, para que o trabalho remoto não seja um termo associado ao lar, mas um ambiente onde você possa se integrar ao trabalho, colaborar e compartilhar.
“A era digital e os novos modelos de vida saudável estão rompendo com estereótipos e colocam o meio rural como um espaço privilegiado para viver”
O que as cidades menores podem oferecer para tornar a vida mais fácil em comparação com as grandes cidades?
Sem dúvida, qualidade de vida. Ambientes mais simpáticos e saudáveis, relações pessoais e sociais mais calorosas e próximas, ajuda mútua, cooperação entre vizinhos, ritmo de vida mais calmo, regresso à educação de valores e a modelos de empreendedorismo social e colaborativo. Em suma, um modelo de vida mais sustentável, mais consciente e mais respeitoso.

Como é que ajuda os jovens a iniciar os próprios projetos?
O verdadeiro sentido da rede é oferecer ferramentas e recursos técnicos e econômicos para que os jovens possam desenvolver seus próprios projetos. Fazemos por meio de diferentes convites para apresentarem as suas ideias e os acompanhamos em todo o processo com treinamento, aconselhamento e diferentes ferramentas de motivação e inspiração.
O valor do Jovens Dinamizadores Rurais é o espírito de comunidade que está por trás do projeto, o qual ultrapassa os limites locais. É uma rede regional que permite que os jovens se sintam parte de um coletivo em que aprendem, desenvolvem-se pessoal, social e até profissionalmente, e que lhes permite conectar-se a outros jovens que tenham interesses comuns. Na rede, além dos jovens, lideranças juvenis de regiões colaboradoras, profissionais do desenvolvimento rural, agências de emprego, associações e entidades que acreditam em um mundo rural mais inovador, social e sustentável também participam.
“Modelo de vida mais sustentável, mais consciente e mais respeitoso”
Por que razão é importante promover a possibilidade de os jovens permanecerem em seus locais de origem?
A nossa intenção não é, necessariamente, incentivar para que os jovens permaneçam nos seus locais de origem, mas oferecer os instrumentos necessários para que possam decidir se querem ficar. O mais importante é que eles possam escolher onde viver e que todos os lugares, sejam rurais ou urbanos, reúnam as condições básicas para que possam desenvolver suas vidas pessoais a nível profissional e familiar.
Em nosso projeto, promovemos valores que estão muito alinhados com a vida rural, porque obviamente nosso objetivo é alcançar um território mais forte, mais inovador, mais participativo e mais jovem.
O rural está sendo revalorizado?
Penso que sim, felizmente. Graças ao impulso das pessoas, dos empresários e das entidades e dos serviços existentes no ambiente rural, estamos nos tornando mais visíveis, enfatizando os aspectos positivos da vida rural, demonstrando que viver em uma cidade do interior não é subtração, mas sim uma soma.
Desde o início do nosso projeto, temos feito diferentes campanhas para tornar visíveis iniciativas, projetos e pessoas que se desenvolveram bem por trabalharem com índices de inovação incríveis, colocando o valor nas pessoas e nos processos mais do que na rentabilidade econômica dos projetos. Isso é algo que está sendo muito valorizado, temos que nos tornar visíveis, presencial e digitalmente, para que a onda da ruralidade seja cada vez maior.
Como você imagina a vida no interior em 20 anos?
Imagino um meio rural vivo, com projetos interessantes, liderados por pessoas preparadas e qualificadas. Um ambiente rural com serviços de educação e de saúde na medida para sua população, com boas conexões digitais e boas ligações rodoviárias. Um ambiente rural inclusivo, onde vale a pena viver.
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