Seu amor pela música começou desde muito pequena. Aos 4 anos já tocava piano, aos 27 anos estreou pela primeira vez como regente de orquestra e aos 47 publicou um livro sobre o grande desafio que representa liderar nesse cenário. Reconhece que seu objetivo não é ser a melhor para os outros, mas para si mesma, transmitir ao público honestidade e sinceridade.

Currently, there are hardly any women serving as principal conductors of orchestras. How do you see the future of classical music? O que sentiu? 

Independentemente do cenário, a música tem o poder de emocionar, de unir o público. Tudo isso faz com que esse momento seja algo único, o que me ajuda a continuar com mais força, a me superar a cada dia, e a criar o ambiente adequado para que todos saiam revigorados.

Atualmente, quase não há mulheres regentes titulares de orquestras. Como você vê o futuro da música clássica?

A incorporação da mulher à orquestra foi um processo lento e paulatino. Hoje, existe uma maioria feminina nos quadros de funcionários, mas ainda é preciso alcançar o pódio, ou seja, que tenhamos mais mulheres regentes, algo que tenho certeza de que acontecerá, porque, apesar de enfrentarmos obstáculos, há muito talento. Minha esperança é que as mulheres sintam que ser regente de orquestra é uma profissão apaixonante que se conecta com as batidas do coração do público. Se uma jovem tem o sonho de ser regente de orquestra, deve saber que com determinação, demanda própria e paixão não há fronteiras.

INMA SHARA

Que impacto tem a música na saúde e no desenvolvimento das pessoas? 

As vantagens são incontáveis. A música é terapia, é um alimento para a alma, uma ferramenta que permite melhorar a comunicação, que nos ensina a administrar o medo do palco, a nos expressar em público, e que é fundamental para as pessoas que sofrem de doença mental, já que atua como um remédio. Nas crianças, a orquestra desperta múltiplas habilidades porque ensina a escutar, a se superar através de um instrumento, e a trabalhar em equipe porque sabem que precisam do colega para poder interpretar uma peça musical.

Conta com grandes reconhecimentos. Como avalia sua trajetória? 

Todas as demonstrações de agradecimento e de apreço que recebi ao longo da minha carreira me deram muita força para continuar, principalmente com entusiasmo, integridade e coerência. Meu objetivo não é ser a melhor para os outros, mas para mim mesma, transmitir ao público honestidade e sinceridade. Na orquestra cada um tem sua própria pulsação, e o que o torna forte é precisamente a entrega das pessoas que a compõem, que colocam a serviço do grupo suas qualidades artísticas, sua energia e sua generosidade. Mais do que grandes nomes, buscamos pessoas comprometidas que queiram transformar e formar uma equipe. 

Como descobriu sua vocação?

Desde pequena convivi com a arte e tive uma formação acadêmica muito completa. Pratiquei a pintura e a dança, mas foi a música a disciplina que teve maior presença na minha vida. Comecei com quatro anos a tocar piano e outros instrumentos. Costuma-se dizer que a razão nos guia, mas os sentimentos nos mobilizam. No meu caso, fui brincando com a arte até que senti que de alguma forma devia canalizar todos os meus esforços para alcançar o sonho de ser regente de orquestra. Uma das minhas virtudes é saber aproveitar a oportunidade de me dedicar profissionalmente à música, um alimento para a alma e a saúde.

Em alguma ocasião, você disse que gosta do som do silêncio. Como define isso? 

Vivemos em uma sociedade que muda em grande velocidade e muitas vezes não sabemos parar e conviver com o silêncio, com a autocrítica. Tendemos a nos comparar com o exterior, mas considero que devemos ser mais competitivos conosco mesmos, não ter medo da mudança porque é apaixonante conviver com cenários que não são previsíveis. Acho que é fundamental aprender a conviver com o silêncio e refletir sobre nossos pontos fortes e fracos para poder despertar aquilo que não consideramos.