Advogada por formação e especialista em igualdade, diversidade e inclusão por convicção, Marta Fernández possui claras aspirações para que a empresa onde trabalha, a Schneider Electric, possa se tornar a empresa mais inclusiva do mundo. Os reconhecimentos que vem recebendo são uma demonstração evidente de que esse objetivo está sendo alcançado.

Um dos mais recentes (e renomados) é o Prêmio Mapfre Inclusión Responsable 2025 (MIR), entregue no último mês de dezembro durante o VI Fórum do Observatório Mapfre de Finanças Sustentáveis da seguradora. Mais uma prova da importância que a Mapfre confere à inclusão como uma realidade em todos os setores profissionais. De fato, atualmente, mais de 4% de nosso quadro de funcionários é composto por pessoas com deficiência, o que representa cerca de mil pessoas.

Nesta entrevista, Fernández detalha os pilares para a inclusão profissional e destaca, especialmente, a importância de “eliminar barreiras, tanto visíveis quanto invisíveis”.

No último mês de dezembro, a Schneider Electric recebeu o Prêmio Mapfre Inclusión Responsable 2025 (MIR). O que representa para uma empresa como a sua ter sido reconhecida por um tema social tão importante quanto a inclusão profissional?

Representa um imenso orgulho e possui um valor profundamente simbólico. Não se trata de um objetivo alcançado, mas do reconhecimento de um caminho que percorremos há muitos anos, onde inserimos a inclusão no centro de nossas decisões e de nossa cultura corporativa.

Na Schneider Electric, costumamos afirmar que nosso desejo é nos tornar a empresa mais inclusiva do mundo. E não é apenas um lema, é um compromisso que molda nossa política mundial, nossa governança e, principalmente, a maneira como tomamos decisões diariamente. Para nós, o progresso somente é sustentável se for inclusivo e reconhecendo que todas as pessoas são únicas. Este prêmio oferece visibilidade ao trabalho coletivo de muitas pessoas que, em diferentes âmbitos da organização, possibilitaram que a inclusão das pessoas com deficiência seja uma realidade cotidiana e não apenas uma declaração de intenções.

A inclusão no trabalho não se trata somente de emprego: trata-se de dignidade, autonomia e pertencimento. Gosto de expressar isto com uma frase que resume a nossa cultura: “não nos importa como você caminha; o importante é a pegada que você deixa”. Essa pegada, neste contexto, é a oportunidade: criar ambientes acessíveis e oferecer trajetos reais, para que cada pessoa possa desenvolver seu potencial ao máximo. E quando uma empresa age em sintonia com seus valores e ações, o impacto vai muito além de suas paredes.

“A inclusão no trabalho não se trata apenas de emprego: trata-se de dignidade, autonomia e pertencimento”

Comente um pouco mais sobre sua política de inclusão profissional de pessoas com deficiência.

Na Schneider Electric, seguimos um princípio muito simples: cada pessoa deve ter a liberdade de ser quem é no trabalho, de se sentir respeitada, tratada de forma igualitária e com a segurança de poder contribuir com seu talento. Esse é o ponto de partida de toda a nossa política de inclusão no trabalho. Para tornar isto realidade, trabalhamos com uma visão muito clara: eliminar barreiras, tanto visíveis quanto invisíveis. Isto envolve assegurar acessibilidade em nossos prédios, ferramentas e processos, mas também verificar como comunicamos, selecionamos o talento e projetamos e entregamos nossas soluções no mercado. A inclusão não finaliza na porta do escritório; ela faz parte de todo o ciclo de valor.

Nossa política global de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) define um marco comum que também se adapta às realidades locais. Mas há um ponto que considero especialmente importante: a responsabilidade é compartilhada. Não é “um tema de Recursos Humano”; é cultura e é liderança. Queremos líderes que tomem decisões inclusivas na seleção, desenvolvimento, promoção e, quando necessário, na adaptação do cargo.

Em suma, nossa política de inclusão profissional é baseada em uma convicção profunda: a diversidade não é apenas uma característica, mas uma vantagem humana e competitiva. E quando a tratamos como tal, as pessoas prosperam, as equipes se fortalecem e a empresa oferece um impacto real.

Quais são os principais desafios para uma empresa que deseja se tornar a mais inclusiva do mundo?

O maior desafio é tentar não cair na autocomplacência. A inclusão não é um troféu conquistado uma vez, mas uma disciplina exercitada diariamente. Isso demanda uma liderança capaz de se autoavaliar, com coragem para questionar preconceitos, corrigir práticas que não funcionam e aprender continuamente. Além disso, exige algo especialmente complexo para organizações globais como a nossa: a coerência. Coerência entre o que dizemos e o que fazemos em cada país, em cada equipe e em cada processo.

Outro desafio significativo é o cultural. Muitos impedimentos não são intencionais: são inercias, hábitos ou formas de trabalho herdadas. Superar esses entraves implica treinar o olhar para valorizar o diferente e criar espaços onde as pessoas se sintam seguras para se expressarem como elas realmente são.Embora seja uma responsabilidade compartilhada, aqueles que lideram as equipes devem ser capazes decriar segurança psicológica e emocional, construir equipes diversas, zelar pelo bem-estar e atuar com tolerância zero contra qualquer comportamento que fira essa cultura.

O que as pessoas com deficiência agregam a uma empresa?

Talento e uma visão que enriquece profundamente as equipes. Ao integrarmos experiências de vida diferentes, minimizamos pontos cegos, projetamos melhor e lideramos melhor. A diversidade nos obriga a agir com mais intenção, e isso se reflete no negócio, na inovação e na cultura interna.

E há algo que sempre gosto de ressaltar: a deficiência não define ninguém, mas muitas pessoas desenvolveram habilidades que qualquer empresa valoriza enormemente, como resiliência, criatividade para a resolução de problemas, pensamento lateral, foco, porque aprenderam a se movimentar em ambientes onde se adaptar faz parte do dia a dia.

Por isso, sempre lembro de uma ideia que me acompanha há anos: se não somos capazes de enxergar o que cada pessoa contribui para a nossa organização, quem possui realmente a deficiência? Essa pergunta nos coloca no caminho certo: que é revisar nossos vieses e ampliar nossa perspectiva.

A inclusão, entendida sob este ângulo, não é um gesto “generoso”. É uma escolha estratégica. As empresas que percebem isto se tornam mais competitivas, coerentes e humanas. E quando as pessoas se sentem realmente consideradas, elas demonstram todo o seu potencial. Esse é o impacto real.

Você acredita que no mundo empresarial mudanças estão ocorrendo e que cada vez mais assuntos como a inclusão são importantes?

Algo está mudando, embora isto ainda ocorra de forma desigual entre setores e regiões. O que antes era considerada uma “pauta social” ou um tema secundário, hoje faz parte do rendimento sustentável de uma empresa. As pessoas não buscam apenas um bom emprego: elas buscam ambientes onde sejam respeitadas, cuidadas e possam desenvolver sua carreira sem abrir mão de suas identidades. E as organizações que entendem isto estão formando culturas mais fortes, resilientes e com equipes significativamente mais engajadas.

Acredito que o que está mudando no mundo empresarial é a consciência de que a inclusão não é apenas um gesto relativo à reputação, mas uma vantagem competitiva. Quando as pessoas podem ser autênticas, as ideias fluem, a inovação cresce e a empresa se torna um lugar onde os indivíduos não apenas trabalham: eles pertencem. E isso transforma qualquer organização desde o seu interior.

O que esse tipo de interesse traz para as empresas?

É muito importante. Principalmente, na confiança, um dos ativos mais valiosos dentro de uma empresa. Quando uma pessoa se sente segura para ser autêntica, sem filtros, sem medo, sem a obrigação de encaixar, ela trabalha melhor, colabora mais e tem a coragem para inovar. Essa segurança é percebida nas equipes, nas relações e, é claro, nos resultados.

Uma abordagem séria de diversidade, equidade e inclusão não é apenas “o correto”, é estratégica. Ela auxilia na atração de talentos, reduz a rotatividade, reforça a liderança e melhora a reputação. Mas, acima de tudo, otimiza o desempenho organizacional, porque gera culturas mais amadurecidas, abertas e saudáveis.

Além disso, a inclusão bem estruturada profissionaliza a empresa. Ela nos obriga a revisar processos, padronizá-los e torná-los mais transparentes e justos. E quando as regras são claras e funcionam para todas as pessoas, as organizações avançam com maior coerência e solidez. A inclusão, no fim das contas, não é um extra: é uma forma de construir empresas mais inteligentes, humanas e sustentáveis a longo prazo.