Ban Ki-moon também ressaltou que a tecnologia poderia ajudar as pessoas com deficiências a usar seu pleno potencial tanto em suas comunidades quanto nos seus locais de trabalho e aproveitar suas capacidades ao máximo. Seis anos depois, os avanços vieram, e tecnologias como a Inteligência Artificial deram grandes passos, de modo que agora ela é classificada como uma ferramenta fundamental para a inclusão em uma sociedade que tende a afastar as pessoas com deficiências.

 

Inclusão contra exclusão

Essa é, precisamente, a questão mais importante quando se fala de tecnologia e deficiências. Não há dúvida de que os avanços ajudam profundamente as pessoas que sofrem de algum impedimento físico, sensoriomotor ou mental, e há muitos exemplos disso (que serão apontados mais tarde), mas também é verdade que, em muitas ocasiões, essa mesma tecnologia pode acabar por excluí-las ainda mais se essas pessoas não forem levadas em consideração.

Como podemos verificar no artigo “Inteligência Artificial e Pessoas com Deficiência a partir uma visão exigente de direitos humanos”, do Comitê Espanhol para os Representantes das Pessoas com Deficiências (CERMI), existem riscos no uso da Inteligência Artificial, pois já foram captadas “discriminações em detrimento de grupos sociais mais expostos a violações de seus direitos, em relação a gênero, raça ou situação migratória”, e acrescenta: “estudos recentes demonstram que as pessoas com deficiências, mulheres e homens, não são alheias ao fenômeno, muitas vezes por meio de discriminações múltiplas e interseccionais”.

Inteligência Artificial “discriminatória”

O CERMI assinala os principais perigos de uma utilização exclusiva da IA e os grandes benefícios de uma utilização inclusiva, ou seja, de promover a separação ou de evoluir para uma inclusão cada vez maior.

Entre os riscos, destacam-se:

Sobre essa possível realidade, Joan Pahisa, doutor em Informática e especialista em Tecnologias Acessíveis e P+D da Fundação ONCE, também se pronuncia, assegurando que tanto a tecnologia em geral como a IA em particular tendem a cair nos preconceitos habituais da sociedade. Se os programadores mal conhecerem a realidade das pessoas com deficiência, a Inteligência Artificial resultante sofrerá essa capacidade de aprendizagem, de modo que acabará excluindo as pessoas com deficiência.

Inteligência Artificial inclusiva

Apesar desses medos lógicos, não há dúvida de que as novas tecnologias oferecem uma oportunidade fantástica para melhorar a vida das pessoas com deficiências.

Entre os benefícios apontados pelo CERMI, destacam-se:

Da mesma forma, assim como apresenta alguns riscos, Joan Pahisa reflete sobre o grande potencial que a IA tem com exemplos como “algoritmos que leem textos e reconhecem imagens, dispositivos que transcrevem conversas a pessoas com problemas auditivos, casas automatizadas que permitem controlar luzes, portas ou robôs a distância, robôs de assistência e inúmeras soluções que já facilitam a independência de muitas pessoas”.

Análise exaustiva

Na verdade, atualmente, estão sendo desenvolvidos vários projetos em todo o mundo, já que o potencial dos aplicativos de Inteligência Artificial é enorme para pessoas com todos os tipos de deficiências (visuais, auditivas, cognitivas, de mobilidade, de aprendizagem etc.).

Há muitos exemplos a esse respeito. Um deles está na Polônia, onde foi desenvolvido um projeto chamado Insension, que visa a compreender melhor as necessidades de pessoas com deficiências intelectuais múltiplas e graves. Através de vídeos e áudios, um sistema de Inteligência Artificial analisa cada um deles e consegue decifrar o significado de cada movimento, gesto ou som. Isso ajuda os cuidadores, que podem atender melhor seus pacientes.

Acessibilidade

Outro exemplo é a iniciativa lançada pela Microsoft em 2018: AI for Accessibility, por meio da qual são identificados projetos destinados a melhorar a acessibilidade das pessoas com deficiências.

A AI for Accessibility foca em três áreas principais:

Contexto profissional

Sobre os avanços no campo do trabalho, a Fundação Adecco e Keysight aprofunda a discussão no IV Relatório sobre Tecnologia e Deficiência, segundo o qual as novas tecnologias melhoraram a qualidade de vida integral de seis em cada dez pessoas com deficiência.

Além disso, o relatório afirma que “as novas gerações projetam um futuro profissional em que podem trabalhar, quebrando a tradição anacrônica que relaciona a pessoa com deficiência à inatividade e à dependência”.

A tecnologia ajuda as pessoas com deficiência a ocupar postos de trabalho que antes não ocupavam, com tudo o que isso implica em termos de exclusão social e de perda de ativos com grandes capacidades.

É isso que Mike Hess, um empreendedor residente nos EUA e fundador do Instituto de Tecnologia para Cegos, apresenta em uma entrevista em que não hesita em salientar que sua falta de visão era somente um inconveniente: “sou casado, sou pai de três filhos, tenho competido em artes marciais, pratico esqui, escalo montanhas e tive uma carreira bem sucedida de 20 anos na indústria da tecnologia”.

Um recurso não utilizado

Na verdade, Mike Hess tem a certeza de que as pessoas com deficiências são o maior recurso inexplorado do planeta: somos os candidatos perfeitos para aquilo a que chamo de empregos do tipo ‘escritório’. A tecnologia atual é muito acessível, e as pessoas com deficiências são funcionários extremamente produtivos e leais. De alguma forma, são mais produtivos que as pessoas que enxergam”.

Afinal, conforme apontado nos produtos desenvolvidos no Centro Don Orione de Posada de Llanes (Espanha), trata-se de um “trabalho realizado por uma pessoa com deficiência e muitas outras capacidades”. E agora, com as novas tecnologias, essas muitas outras capacidades poderão ser desenvolvidas com mais facilidade.