Economista, jornalista e autor

 

A Europa enfrenta importantes desafios em sua luta para manter a competitividade. Apesar de ser uma das regiões econômicas mais avançadas, seu atraso em inovação e tecnologia em relação aos Estados Unidos e à China ameaça sua posição estratégica. Segundo dados do Global Competitiveness Report 2024 do Fórum Econômico Mundial, a Europa perdeu terreno  em áreas-chave como a digitalização e o desenvolvimento tecnológico, ficando atrás de seus concorrentes em vários indicadores críticos. A adoção da tecnologia é, portanto, um fator determinante para impulsionar a produtividade empresarial.

O Velho Continente atravessa um período de desaceleração econômica, com um crescimento que se mantém abaixo da média histórica e que difere do registrado por outras economias avançadas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB da região cresceu apenas 0,6% em 2023, refletindo um avanço moderado que afeta tanto as grandes economias como os países menores, e não parece que a situação vai melhorar muito este ano. De acordo com o relatório Panorama econômico e setorial 2024: atualização de previsões para o quarto trimestre, elaborado pela Mapfre Economics, a zona do euro registrará previsivelmente um crescimento de 0,8% este ano, seguido de uma melhoria em 2025 até alcançar 1,2%.

Esta situação é explicada em grande medida pelo baixo investimento do setor privado, apesar de algumas condições financeiras que poderiam ser mais favoráveis. Fatores como a incerteza política, as tensões geopolíticas e as barreiras estruturais persistentes continuam limitando um crescimento econômico mais sólido.

O FMI destaca que a Europa ainda tem uma base sólida sobre a qual construir sua recuperação econômica. A região conta com setores industriais competitivos, uma força de trabalho muito qualificada e um ambiente de pesquisa de primeiro nível. No entanto, para aproveitar este potencial, é necessário eliminar os obstáculos que fream o investimento privado e criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de tecnologias emergentes. A organização destaca que a Europa tem uma ampla margem para melhorar se conseguir incentivar o investimento, fomentar a inovação e fortalecer suas infraestruturas digitais.

Neste contexto, as empresas europeias têm a oportunidade de liderar uma transformação que não só lhes permita competir com outras regiões, mas também responder às exigências de uma economia mais digital e sustentável. Neste sentido, maior investimento em P + D pode aumentar de forma significativa a produtividade e o crescimento econômico, conforme resulta do European innovation scoreboard 2023. A chave está em acelerar a inovação tecnológica e superar as barreiras que detêm o desenvolvimento empresarial.

Obstáculos na competitividade

Esta fraqueza europeia não é nova, mas agora, vários relatórios analisaram a situação em profundidade. É o caso do relatório Letta, elaborado pelo ex-primeiro ministro italiano Enrico Letta, ou o publicado recentemente por Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu e também ex-primeiro ministro italiano. Sob o título O futuro da competitividade europeia, Draghi aprofunda uma série de desafios que estão afetando a competitividade do Velho Continente.

  1. Atraso em investimento em P + D

A Europa investe menos em pesquisa e desenvolvimento em comparação com os Estados Unidos, Japão e China. Este déficit é mais pronunciado no setor privado, onde predominam as indústrias de intensidade tecnológica média ou baixa, o que reflete a falta de um ambiente propício para o desenvolvimento de setores de alto valor agregado.

Por exemplo, no setor tecnológico, a Europa reconheceu sua dependência de fornecedores externos na produção de semicondutores, componentes essenciais para tecnologias avançadas como a inteligência artificial e a Internet das Coisas. Para abordar esta vulnerabilidade, a União Europeia implementou a Lei Europeia de Chips, com o objetivo de duplicar sua participação de mercado global para 20% até 2030. Esta iniciativa busca fortalecer a competitividade e a resiliência da Europa em tecnologias de semicondutores, apoiando a transição digital e verde.

  1. Fragmentação do mercado interno

As barreiras regulatórias, fiscais e legais dentro dos Estados membros dificultam que as startups e empresas tecnológicas escalem a nível continental. As PMEs, que constituem o núcleo do tecido empresarial europeu, contam com maiores dificuldades para competir em escala global devido à diversidade normativa.

  1. Custos energéticos elevados

A competitividade industrial europeia sofre preços de energia mais altos que os de seus principais concorrentes. Este fator aumenta os custos de produção e limita a capacidade das empresas de investir em novas tecnologias.

  1. Baixa comercialização de novas tecnologias

Apesar de ter uma base científica sólida e contar com uma tradição pela inovação, a Europa não conseguiu converter estes avanços em uma liderança comercial. Isto torna-se mais palpável em setores como a inteligência artificial, os semicondutores e a computação quântica, onde Estados Unidos e Ásia assumiram a liderança.

Tendências de inovação para liderar a mudança

Para reverter esta situação, é crucial focar nas tendências tecnológicas que estão redefinindo a economia global. Estas tecnologias não representam apenas uma oportunidade para aumentar a competitividade europeia, mas também um meio para transformar setores estratégicos.

  1. Inteligência Artificial (IA)

A inteligência artificial está transformando a forma como as empresas operam, otimizando processos e melhorando a tomada de decisões em tempo real. Seu impacto abrange setores-chave:

  1. 5G e a Internet das Coisas (IoT)

A combinação de 5G e IoT está impulsionando avanços significativos em vários setores ao habilitar a conectividade em tempo real e a automatização de processos. No setor segurador, estas tecnologias estão transformando a forma como os dados são coletados, analisados e utilizados para melhorar os serviços oferecidos:

  1. Cibersegurança 

A crescente digitalização aumentou a exposição das empresas a ciberataques. A proteção de dados e a continuidade das operações tornaram-se prioridades críticas para as organizações. Segundo dados recentes, os ciberataques na Europa cresceram 40% nos últimos três anos, afetando setores-chave como a saúde, as finanças e a indústria.

  1. Tecnologias limpas

A transição para fontes de energia mais limpas e sustentáveis é essencial para garantir a segurança energética e combater a mudança climática. Assim, a dependência da Alemanha do gás russo, especialmente durante a crise de 2022, expôs a vulnerabilidade do seu sistema energético. Para mitigar essa situação, o país aumentou os investimentos em energia solar e eólica, mas continua enfrentando desafios relacionados ao armazenamento e à diversificação das fontes de energia. Este exemplo demonstra a importância de desenvolver tecnologias que reduzam a dependência de recursos externos.

Estratégias para superar os desafios de competitividade neste novo contexto

A Europa enfrenta importantes obstáculos para se posicionar-se como líder tecnológica, mas também conta com grandes oportunidades para alcançar esse objetivo:

A conclusão do relatório está clara: a inovação tecnológica é fundamental para a competitividade empresarial e o crescimento econômico na Europa. Segundo o Quadro Europeu de Indicadores da Inovação 2022 da Comissão Europeia, o rendimento da UE em matéria de inovação melhorou cerca de 10% desde 2015.  No entanto, para consolidar este progresso e recuperar a liderança global, é necessário uma ação imediata e coordenada entre empresas, governos e instituições.