A economia norte-americana deve apresentar um crescimento de 2,2% este ano e de 1,9% no próximo, com uma inflação de 2,5% e 2,3%, respectivamente, segundo detalhado pela Mapfre Economics em seu relatório Panorama econômico e setorial 2026, em que ressalta que a geopolítica é o eixo central que reorganiza o ciclo econômico e redefine as funções de reação das políticas monetária e fiscal.

“A persistência das tensões geopolíticas, mais do que sua intensidade, representa o principal risco de curto prazo no cenário econômico”, apontava o Serviço de Estudos em fevereiro. Essa percepção volta a ganhar relevância em uma semana marcada por ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã e sua resposta. Somado a isso, nesta operação ocorreu o assassinato de Jamenei, líder supremo do Irã desde 1979.

Eduardo García Castro, economista especialista do Serviço de Estudos, aponta que há três fatores que condicionarão a dinâmica macrofinanceira deste conflito: a duração e intensidade das hostilidades, a integridade da infraestrutura crítica e a gestão do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo e uma parte substancial do gás natural liquefeito (GNL) mundial.

Além da geopolítica, a Mapfre Economics explica que, entre os principais riscos de curto prazo para a economia dos Estados Unidos, destaca-se a deterioração da trajetória fiscal e seu possível impacto sobre o custo de financiamento. O déficit federal finalizou 2024 em cerca de 6,2% do PIB, e estima-se que continue elevado nos próximos anos: as estimações oficiais colocam o déficit próximo a 6,2% do PIB em 2025 e 5,8% em 2026, o que desenha um caminho fiscal claramente insustentável no médio prazo.

Esta situação foi admitida como problemática pela Reserva Federal, pelo Escritório de Orçamento do Congresso, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelas principais agências de qualificação. O aumento persistente das necessidades de financiamento, em um cenário de altas taxas de juros e redução do balanço da Reserva Federal, explica os recentes aumentos dos rendimentos da dívida do Tesouro e o crescente debate sobre o apetite estrutural por títulos norte-americanos, especialmente por parte de investidores estrangeiros.

O pacote fiscal aprovado em julho, denominado “One Big Beautiful Bill”, intensifica estes riscos na medida em que inclui deduções fiscais para horas extras, gorjetas e contribuições para a previdência social, juntamente com um aumento significativo do gasto em defesa e controle migratório, enquanto corta incentivos para a compra de veículos elétricos e reduz progressivamente outros créditos fiscais associados ao IRA (Inflation Reduction Act), prevendo ainda cortes no Medicaid.

O Escritório de Orçamento do Congresso calcula que o pacote poderia adicionar entre 2,4 e 3 bilhões de dólares (trilhões em notação norte-americana) ao déficit e à dívida na próxima década, enquanto o governo sustenta que o maior crescimento trará receitas adicionais, uma hipótese amplamente questionada pelos analistas.

Suspensão de acordos tarifários

O Supremo Tribunal declarou ilegais as tarifas impostas pelo governo norte-americano, uma suspensão que sinaliza uma mudança de rumo na política comercial norte-americana. 

“A sentença da Suprema Corte não apenas encerra um período excepcional (em que a Casa Branca aplicou tarifas a quase todos os seus parceiros comerciais), mas também obriga a repensar o marco legal sobre o qual residirá a estratégia tarifária nos próximos meses. O ponto relevante não é apenas a mudança jurídica: é o ambiente de incerteza regulatória, a reconfiguração de incentivos para empresas e investidores, e o potencial redirecionamento de fluxos comerciais que começa a partir de agora”, explica García Castro em um relatório recente.

Por outro lado, a Mapfre Economics já havia alertado no relatório, no mês de fevereiro, que devido à elevada dependência dos Estados Unidos da economia externa para financiar seu déficit, a combinação de desequilíbrios fiscais persistentes, o endurecimento financeiro e a escalada geopolítica representam um risco significativo não apenas para a economia desse país, mas também para a estabilidade do sistema econômico mundial