A Mapfre Economics, o serviço de estudos da Mapfre, elabora um mapa de riscos para seu relatório Panorama econômico e setorial 2026, no qual destaca todos os aspectos que podem afetar o desempenho da economia global e no qual a dívida vem ganhando cada vez mais protagonismo.

Nesse sentido, os Estados Unidos são um dos países que mais preocupam economistas e organismos nacionais e internacionais, que identificam a deterioração da trajetória fiscal e seu potencial impacto sobre o custo de financiamento como riscos para sua economia. O déficit federal encerrou 2024 em torno de 6,2% do PIB, e prevê-se que permaneça elevado nos próximos anos: as estimativas oficiais situam o déficit perto de 6,2% do PIB em 2025 e em cerca de 5,8% em 2026, configurando uma trajetória fiscal claramente insustentável no médio prazo.
O aumento persistente das necessidades de financiamento, em um contexto de taxas de juros elevadas e de redução do balanço do Federal Reserve (Fed), está por trás dos recentes aumentos das rentabilidades da dívida do Tesouro e do crescente debate sobre o apetite estrutural por títulos americanos, especialmente por parte de investidores estrangeiros.
Esse déficit foi ampliado com a “One Big Beautiful Bill”, que estende cortes tributários e aumenta os gastos em áreas prioritárias, adicionando estímulos e adiando ajustes fiscais. “O Tesouro dos Estados Unidos enfatizou o financiamento com títulos e insinuou que considera futuros aumentos de cupons; o mercado já precifica uma maior inclinação das curvas de juros como sinal de preocupação com excessos fiscais e com um prêmio de prazo mais volátil”, destaca a Mapfre Economics em seu relatório.
Além disso, explica que um “debt scare” poderia desencadear leilões mais agressivos, pressão nos vencimentos de 10 a 30 anos, e recompras pelo Tesouro com viés de controle tácito da curva de juros. “A disciplina fiscal aparece como um pré-requisito para ancorar expectativas”, insiste.
No entanto, o problema da dívida não é exclusivo dos Estados Unidos. Na Europa, a mudança em direção a maiores gastos com defesa e infraestrutura, combinada com a revisão das regras fiscais, pode exacerbar tensões políticas e econômicas dentro das coalizões governamentais. Os processos eleitorais e a renegociação de pacotes fiscais em 2026 serão pontos críticos que podem impactar a estabilidade da região.

Outros riscos que ameaçam a economia global
O risco de governança em nível global continua elevado devido à persistência de medidas protecionistas, ao uso de tarifas como ferramenta de negociação e à possibilidade de retaliações coordenadas. A União Europeia, o Canadá e o México já foram alvo de anúncios de tarifas generalizadas ou setoriais por parte do governo dos Estados Unidos, com ameaças de aumentos caso não sejam reequilibrados déficits ou adotadas concessões específicas. Isso deteriora a previsibilidade regulatória e a segurança jurídica das cadeias de valor, aumenta os custos transfronteiriços e pode prejudicar o investimento, sobretudo em setores de manufatura complexa (automotivo, máquinas e aeroespacial).
Em relação à política monetária, a Mapfre Economics lembra que a convergência para taxas de juros “neutras” não está garantida e também alerta para o risco de inflação.
A China, por sua vez, enfrenta riscos relacionados à sua dívida imobiliária e financeira. O elevado endividamento de empresas e governos locais soma-se à pressão sobre seu sistema bancário, aumentando o risco de crises de liquidez. Enquanto isso, economias emergentes como Brasil e Turquia enfrentam desafios semelhantes, com altos níveis de dívida externa que as tornam vulneráveis a flutuações nos mercados internacionais e a decisões de política monetária em países desenvolvidos.