Diretor geral da Mapfre Economics
De acordo com dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, enquanto no período 1950-1979 a taxa de crescimento média anual do PIB situou-se em 5,5%, em 1980-2009 tinha caído para 2,7%, e entre 2010 e 2023 foi de apenas 1,6%.
Muito tem sido escrito sobre os problemas estruturais que mantêm o desenvolvimento da América Latina preso. Embora variáveis como a hiperinflação e o crescimento populacional que a sobrecarregaram no século passado são questões que conseguiram ser mitigadas, outras como os insuficientes níveis de poupança e investimento, a baixa produtividade, a dependência da exportação de matérias-primas, a informalidade trabalhista e a desigualdade social continuam sendo temas não resolvidos. A estes se somam outros que emergiram com o novo século como os efeitos do envelhecimento populacional, a transição energética e a redução da lacuna digital, bem como temas em matéria de democracia, governabilidade e insegurança pública. Da mesma forma, por meio do diagnóstico, também foi escrito abundantemente sobre as reformas estruturais necessárias para superar esses problemas e tornar realidade o potencial inquestionável da região. E, apesar de tudo isso, a letargia persiste.
O que é preciso para romper esta tendência secular?
Além das receitas estruturais, talvez sejam necessárias duas questões de natureza estratégica. A primeira, deixar de conceber a América Latina como um conglomerado uniforme de nações destinadas a um futuro comum. E a segunda, a presença de um fator que, diante da ausência das forças endógenas necessárias, gere exogenamente o momento de mudança que se torna indispensável.
Em sua Carta da Jamaica de 1815, Simón Bolívar propôs que, ao compartilhar origem, língua e costumes, a América Latina deveria se tornar “uma só nação com um único vínculo que ligue suas partes entre si e com o todo”. Paradoxalmente, talvez com esta noção – que foi o mantra latino-americanista por excelência – o Libertador tenha criado um dos principais obstáculos para ter uma visão objetiva sobre o que pode ser o desenvolvimento da região. E é que, longe de a realidade convergir no “sonho bolivariano”, esta diverge cada vez mais, sugerindo que talvez a ideia de uma América Latina como um destino comum seja simplesmente uma quimera.
A deterioração da região vista como um todo mascara realidades muito diferentes. Alguns dados confirmam isso. Enquanto o crescimento médio anual do PIB no Panamá até agora este século foi de 5,5%, no México foi de apenas 1,5%; a população em situação de pobreza extrema é de 0,3% no Uruguai, enquanto em Honduras significa 34,4%; os habitantes em lares que vivem em superlotação representam 5,8% na Costa Rica e 39% em El Salvador; a porcentagem de lares com serviços de água, eletricidade e saneamento atinge 98,8% no Chile, enquanto o indicador é de apenas 50,2% na Bolívia. Mesmo no terreno da percepção institucional, enquanto 79% da população do Uruguai acredita que a democracia é a melhor forma de governo, no Equador apenas 38% acham isso.
É certo que os países latino-americanos compartilham problemas estruturais, mas esses obstáculos também não são substancialmente diferentes daqueles que enfrentaram outras nações do mundo em sua etapa emergente. O que difere é que na América Latina parecem ter esgotado os mecanismos endógenos para superá-los e que é necessário algum fator exógeno que crie as condições para consegui-lo. De fato, outras nações, como as de menor desenvolvimento relativo na Europa, encontraram na ação da União Europeia esse impulso externo que contribuiu para cortar o nó górdio que as tensões sociais e políticas internas tecem para criar uma problemática que, à primeira vista, parece irresolúvel.
De onde pode vir esse impulso exógeno para a América Latina?
Da visão intrarregional, dificilmente será gerado a partir de tentativas de criar alianças que, mais inspiradas na idílica integração bolivariana do que em necessidades econômicas concretas, costumam desentender a lógica das cadeias de valor globais. E, da perspectiva do mundo que circunda a América Latina, também não derivará de projetos de cooperação que, muitas vezes, parecem tentativas de curar feridas do passado colonial. Por mais frio que pareça o argumento, no mundo em que vivemos essa exogeneidade só pode provir das relações econômicas e comerciais que umas nações estabelecem com outras para conseguir um benefício mútuo.
Aqueles polos econômicos globais, como os Estados Unidos e a China, que não olham para a América Latina com os olhos de quem tenta saldar dívidas históricas, mas com uma visão pragmática que identifica nações com potencial para se tornarem contrapartes comerciais e econômicas, estão claramente na dianteira. Enquanto isso, a Europa – que por verdadeira afinidade cultural e histórica deveria estar à frente – segue um passo atrás, sustentando uma agenda que, embora seja plausível ao tentar abordar aspectos que vão além da simples relação econômica, na prática a coloca muito longe de se tornar o fator que contribua para superar os problemas seculares que impedem o futuro da região. A Europa continua sendo a grande ausente na América Latina; ausente na concretização de alianças de longo prazo que aproveitem em benefício mútuo as potencialidades específicas, não da região como um todo, mas dos países que a compõem, e, assim, em ser o fator que aproxime a América Latina de algo que talvez não seja o ‘sonho bolivariano’, mas sim o de uma região mais próspera e justa.
(Artigo publicado no El País em 11 de agosto de 2024.